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Vaga verde de algodão

O ouro branco das matérias-primas têxteis deverá evidenciar aumentos na área cultivada e na produtividade nos próximos anos. Associada com conforto e sustentabilidade pelos consumidores, a fibra tem, contudo, lacunas ambientais, especialmente no seu cultivo.

Com altos e baixos, a utilização por parte das fiações de algodão tem vindo a crescer gradualmente nas últimas décadas. Segundo Gary Adams, presidente e CEO do americano National Cotton Council, o pico foi atingido em 2006, com cerca de 28 milhões de toneladas, um valor que caiu para cerca de 23 milhões de toneladas em 2011 e voltou a ultrapassar os 25 milhões de toneladas em 2017. «A questão é que tipo de crescimento vemos e quais as oportunidades potenciais, assim como os fatores que vão determinar o futuro do algodão», afirmou durante a sua apresentação na conferência da ITMF. Adams dividiu esses fatores em três grupos: motores económicos, gostos e preferências e políticas.

A quota do algodão nas principais categorias de vestuário no mercado americano tem vindo a cair desde 2011, de acordo com o Monitor de Retalho da Cotton Incorporated, tendo atingido o valor mais baixo em 2017. Não obstante, «nos últimos dois anos estabilizou», assegurou o presidente e CEO do National Cotton Council, estando agora ligeiramente acima dos 50%. Mas, apontou Gary Adams, «a concorrência do poliéster é um desafio que o algodão tem de ultrapassar».

Gary Adams

Um outro obstáculo para o crescimento da utilização da fibra prende-se com o cultivo. «Temos de olhar para a oferta de algodão e perceber se proporcionamos oportunidades para a procura crescer», garantiu. A área de cultivo mundial de algodão tem-se mantido mais ou menos estabilizada, rondando, em 2018, os 35 milhões de hectares, enquanto a produtividade tem vindo a crescer ao longo das décadas, dos 600 quilos por hectare em 1990 para os 800 quilos por hectare em 2018.

No top das preferências

A procura de algodão vai também ser influenciada pelos gostos e preferências dos consumidores. «Os tecidos estão a tornar-se mais leves. Isso prejudicou o algodão mas a tendência estabilizou», reconheceu Gary Adams. No entanto, «os consumidores procuram algodão e querem ter algodão na roupa que compram», admitiu, numa altura em que a atenção à composição das peças está a aumentar, pelo menos nos EUA: 54% da geração nascida após a II Guerra Mundial (Baby Boomers) verifica as etiquetas, 50% da Geração X (nascida nos anos 60 e 70) faz o mesmo, assim como 39% dos Millennials (nascidos nos anos 80).

No inquérito Global Lifestyle Monitor de 2018 da Cotton Incorporated, 82% dos inquiridos revelaram que quase todo o seu vestuário era fabricado com algodão ou misturas de algodão e 73% referiram que «o vestuário feito de algodão é mais confortável». Todavia, «há desafios. Os consumidores querem ter facilidade de cuidados, resistência às rugas. Temos de criar produtos que respondam ao que os consumidores querem», destacou Gary Adams.

O desafio da sustentabilidade

Mas o maior desafio prende-se com a sustentabilidade da fibra. Embora 90% dos consumidores acreditem que o algodão é a fibra mais sustentável e mais segura para o ambiente, a verdade é que «o algodão está numa viagem de sustentabilidade. Temos de continuar a transmitir esta mensagem de que o algodão está a dar passos nesse sentido», sublinhou o presidente e CEO do National Cotton Council, lembrando que as fibras de algodão se degradam em ambientes aquáticos (70% em água doce após 33 dias).

Lorena Ruiz

É também nesta área da sustentabilidade do algodão que o International Cotton Advisory Committee (ICAC) está a trabalhar, a começar pelas sementes. «As sementes de algodão são um recurso valioso. Boas sementes podem gerar uma boa colheita», esclareceu Lorena Ruiz, economista do ICAC. No entanto, «em África usa-se cinco a seis vezes mais do que a quantidade recomendada de sementes», o que significa que são desperdiçadas «120 mil toneladas de sementes de algodão, num valor superior a 40 milhões de dólares», afiançou.

O problema, apontou, está na utilização de sementes não limpas, que causam baixa produtividade e aumentam a probabilidade de desenvolvimento de pragas.

As sementes híbridas, elucidou, também «não são sustentáveis», uma vez que exigem mais água e fertilizantes, ao mesmo tempo que são altamente prejudiciais para o solo e têm um índice de colheita baixo.

A sustentabilidade do algodão está a ser trabalhada também ao nível dos resíduos das colheitas, que na maior parte das vezes estão a ser queimados. «No passado, os governos recomendavam aos agricultores a queima desses resíduos. Mas novos estudos mostram que é melhor devolvê-los aos solos», asseverou Lorena Ruiz. EUA e Brasil são exemplos de países produtores onde já se está a fazer isso. «Temos de reeducar os agricultores», realçou a economista do ICAC.