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«Vai haver mais portugueses a ir para as feiras»

O fim da pandemia e o apoio financeiro às empresas portuguesas deverão permitir um regresso em força às feiras profissionais, acredita Tania Mutert de Barros, representante em Portugal das feiras de Munique.

Tania Mutert De Barros

O desejo de voltar aos negócios presenciais ficou evidente na edição da Fabric Days no início de setembro, como pôde testemunhar in loco, e o ritmo das inscrições para a ISPO Munich 2021 decorria a níveis semelhantes à edição deste ano, antes da segunda vaga da pandemia levar ao seu cancelamento.

 A Fabric Days foi a primeira feira de tecidos da Europa a realizar-se presencialmente após o confinamento. Que análise pode fazer em termos de negócios e de ambiente?

Estava muito curiosa e fiz questão de estar presencialmente para ver como corre uma feira no meio de uma pandemia como esta. Posso transmitir que funciona bastante bem. No fundo, é um ambiente como temos a fazer compras. Há um distanciamento social automático, por serem profissionais, e reforçado agora no meio da pandemia. A feira teve um conceito de segurança e de higiene que foi aprovado pelas entidades alemãs, toda a gente de máscara, uma entrada separada da saída em cada pavilhão, os corredores mais largos mas até funcionaram em ambas as direções, os stands muito mais largos – sem os expositores pagarem [por isso], a organização aumentou o espaço para eles poderem fazer o distanciamento de mesas – e, em termos de resultados, os expositores portugueses disseram que a Fabric Days superou as expectativas, sobretudo com clientes alemães, da Áustria e da Suíça. As restrições de viagens não atingiram tanto os visitantes e, em termos de expositores, foi até bastante internacional.

Que impacto está a ter a pandemia na Messe München?

Fabric Days – Forum From Portugal [©Troficolor]
É um desafio grande. A Messe München tem 700 colaboradores, que foram mandados para lay-off e teletrabalho, e gere a situação de uma forma inteligente. O presidente da administração já publicou o número de perdas destes últimos seis meses e foi significativo [perda de 170 milhões de euros desde o confinamento, representando mais de metade da faturação anual esperada]. Noto que a administração esperou com muita ansiedade pelo mês de setembro e foi muito importante termos tido a Fabric Days – embora não seja organizada pela Messe München, decorre num recinto que é propriedade desta.

 Em termos das feiras que representa, que são de diversos sectores, sente muitas diferenças na organização e adesão?

Para cada sector há um conselho consultivo que representa os expositores e uma parte que representa os grandes visitantes e associações, e tem havido reuniões para tentar perceber se aquele sector quer fazer a feira ou não. As diferenças têm mais a ver com o artigo em si. Há sectores que têm mais afinidade com a via digital e não se importam de passar uma edição presencial este ano e fazer só a digital. Por exemplo, temos uma feira de componentes eletrónicos em novembro, que é uma feira da dimensão da ISPO, ocupa mesmo o recinto, e foi agora decidido fazer só uma edição virtual. É uma clientela com muita afinidade ao digital – noto, até nos meus clientes, a diferença entre os expositores portugueses desta feira de eletrónica e os de uma feira de joalharia ou da Fabric Days. São diferentes.

 Há novas formas de trabalhar as feiras, nomeadamente através do digital. São mudanças que vieram para ficar?

Diria que a forma híbrida veio para ficar. Até podia ter sido mais cedo, porque acho que a parte digital vai ser sempre mais para a parte de informação, conferências, workshops,…, e pode funcionar muito bem porque pode estar disponível mais um ou dois meses, para as pessoas que estão fisicamente na feira a estabelecer relações comerciais poderem ter depois acesso à apresentação de estudos de mercado, por exemplo, que muitas vezes não têm tempo suficiente para assistir diretamente. Portanto, podiam focar-se nas relações comerciais na feira física e podiam depois, via digital, ainda aproveitar para ter informação. Acho que isto vai funcionar. Agora, a parte de presença física não me parece mesmo que vai acabar – não é por trabalhar no sector, é mesmo porque não estou convencida disso. Noto que há necessidade de contacto, o ser humano necessita de contacto e eu senti isso agora na Fabric Days, a felicidade por se poderem encontrar na vida real.

Acha que o papel das feiras saiu reforçado?

Sim, concordo plenamente. Por coincidência, as datas limites para as pré-reservas para as feiras em 2021 eram 30 de junho e 30 de julho – são feiras que não se realizam anualmente mas de três em três anos. Eu achava que era difícil alcançar isso nesta fase, mas tive mais pré-reservas em comparação com outros anos. No meio da pandemia, com muita gente ainda em teletrabalho, ainda com lojas fechadas, houve muita demonstração de interesse.

Além da transmissão de conferências online, a Messe München está a trabalhar em alguma plataforma digital específica, como um marketplace?

ISPO Munich 2020 [©Messe München GmbH]
No fundo diria que já tínhamos isso, só não lhe dávamos o nome marketplace. Os catálogos online são um marketplace e a ISPO tem uma presença com expositores online durante um ano até à próxima edição, muito parecido com o marketplace, que permite a pesquisa bastante pormenorizada por tipo de produto. Há muitos anos que a ISPO tem o conceito de 365 dias e não só os quatro dias da feira. E temos o ispo.com, com um blogue que tem uma comunidade não só de profissionais da indústria de desporto, mas também de desportistas e público geral, onde até é possível as marcas testarem um novo produto. Já estávamos a promover muito o contacto entre a comunidade ligada ao desporto.

Os expositores portugueses aderem a essas iniciativas digitais?

Há muitos que se preocupam pouco com a sua presença digital. Em geral até sou eu que ligo e digo que podem preencher o perfil e colocar os produtos gratuitamente, e que faz toda a diferença, quando um potencial cliente visita a plataforma da ISPO em busca de um produto, estar presente.

Mas há sinais de mudança?

Sim. Já notava uma mudança com a geração nova – quem veio da faculdade, do marketing, tinha uma abertura maior e percebia mais a necessidade. Esta geração tem muito mais noção que isto é importante, com a geração anterior tínhamos que convencê-los mais. Mas acho que já há uma mudança e é algo que nos vai acompanhar.

Quais são atualmente os principais desafios de quem está a organizar feiras?

A comunicação é fundamental, tanto a comunicação com a Messe München, como entre nós, representantes, que trabalhamos no terreno. Temos representações em mais de 100 países e retomei muito o contacto com os meus colegas nos outros países, porque estamos no mesmo barco e sentimos muita necessidade de ter mais informação, e mais concreta, sobre o nível do projeto. A feira de Munique começou com meetings online a nível mundial que são muito úteis – é diferente uma newsletter de uma reunião online, onde vejo ao menos a cara, posso fazer perguntas, vejo a reação. Isto foi importante. Do meu lado já tinha percebido que temos que estar muito mais próximos do cliente. Tem que ser o timing correto e depois ir ao encontro do cliente, temos que perceber as suas preocupações, seja com a saúde ou em termos de visitantes. Tenho que ir ao encontro do cliente e tentar perceber o que necessita.

Que perspetivas tem para o futuro?

Sinto mesmo que, mal haja uma sensação de alívio de pandemia, ou seja, uma redução dos números, naturalmente ou por uma vacina, vai haver espaço para uma retoma grande das feiras. Não acho que as feiras, por não se terem realizado agora, vão morrer. Não sinto nada disso.

Tania Mutert De Barros

Sinto que toda a gente está a aguardar o momento para a retoma das feiras em grande. Vai ser um sistema híbrido, mas a parte virtual não acho que seja uma componente grande. Também percebi que trabalho para uma entidade em que quase 100% das feiras são líderes mundiais no seu sector, estão sempre cheias, portanto é um produto bastante desejável, um nível de qualidade bastante elevado. Não vamos atingir isto logo para o ano, não acredito, vão ser edições reduzidas, mas estou otimista. Portugal tem corrido bastante bem em termos de evolução de expositores, a pandemia veio prejudicar, mas desde que haja algum apoio por parte das associações, da AICEP, que haja alguma ajuda financeira, acho que vai haver mais portugueses a ir para as feiras, a terem que ir para retomarem as vendas.