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Vamos pensar a moda?

Serão as marcas ou os consumidores os responsáveis pela falta de transparência e pelo impacto ambiental da indústria da moda? Para onde caminha o luxo? Foram estas algumas das questões lançadas na conferência Fast Talks, sob o tema Fashion and Experience, no arranque da 52ª edição da ModaLisboa.

Joana Barrios, Catherine de Silveira, Julien da Costa, Flávia Aranha

Ao primeiro dia, a ModaLisboa abriu portas a todos os interessados em refletir a moda, não fosse o mote da 52ª edição «Insight», para uma conversa sobre «Fashion and Experiencies». No centro da cidade de Lisboa, as Carpintarias de São Lázaro – antiga fábrica de móveis reconvertida em centro cultural – foram o cenário escolhido para a primeira de várias conversas, numa edição que «pretende ser uma reflexão transversal sobre as novas dinâmicas e as motivações criadas pela moda», descreve a organização.

Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura no município de Lisboa, deu o arranque no diálogo, exaltando a criatividade da ModaLisboa. «Foi uma ótima ideia ocupar este espaço recentemente recuperado. Tendo em conta a constante criatividade que faz parte da moda que usamos todos os dias e a forma como todos os anos se reinventam os desfiles na ModaLisboa, este é o espaço ideal para a reflexão da moda», afirmou.

Moderados por Joana Barrios, Miguel Bento, cenógrafo, Julien da Costa, repórter de moda, Catherine da Silveira, docente de Marketing de Luxo e Moda e Gestão de Marcas na Nova School of Business & Economics, Flávia Aranha, designer brasileira que tem o tingimento natural como foco da sua marca homónima, foram os convidados da conferência.

As mudanças necessárias

Ente ruturas e acasos, foram várias as experiências que conduziram os convidados ao mundo da moda. A designer Flávia Aranha começou por relatar a viagem à China, na altura a trabalhar para uma empresa brasileira, que mudou a sua perspetiva sobre o modo como a indústria trabalha.

Catherine de Silveira, Flávia Aranha, Joana Barrios, Julien da Costa e Miguel Bento

«Quando voltei, passei por aquele clichê de pedir demissão e pela necessidade de mudar de vida. Depois pensei: o capitalismo está em tudo que consumimos, dos telemóveis às roupas», relatou. A mudança acabou por se concretizar com a criação da sua própria marca, que aposta em técnicas tradicionais e sustentáveis na produção.

Já para a francesa Catherine da Silveira, a mudança aconteceu quando abandonou o grupo L’Oreal para começar a dar aulas em Lisboa. «Portugal tem um enorme potencial. Tem a possibilidade de criar um novo tipo de luxo. Há muito know how. Contudo, falta saber vender e trabalhar com uma perspetiva de comércio», apontou.

A preocupação com a sustentabilidade

Entre experiências e visões da moda, os convidados acabaram por admitir que têm uma preocupação em comum: a sustentabilidade.

Para Miguel Bento, cenógrafo português a residir em Londres que colaborou com marcas como Chanel, Nike ou Salvatore Ferragamo, a ligação à moda foi acidental e não planeada. Com a sua própria companhia, a viver em Londres, Miguel Bento olha para a quantidade de lixo produzida na cenografia com apreensão. «Não é fácil. Tentamos reciclar o máximo possível. O que produzimos tem uma duração de vida entre 10 a 15 minutos e, depois, vai para o lixo. Há marcas que pedem para ficar com tudo e deitam fora para que mais ninguém possa usar. Não me sinto realizado nesse sentido», admitiu.

Por sua vez, Julien da Costa, que faz cobertura de semanas de moda há cerca de 10 anos, tendo produzido conteúdos de vídeo para marcas como Chanel, Karl Lagerfeld ou Fendi, reconheceu que «a sustentabilidade é mais do que uma moda. É preciso informar melhor as pessoas sobre as roupas que usam».

Flávia Aranha acrescentou que, além da informação, é importante que os consumidores se sintam emocionalmente ligados às peças de roupa. «Quando se tem uma memória afetiva do processo ou quando uma cliente sabe quem costurou ou tingiu uma peça, tudo muda. Em todas as roupas temos um QR Code que mostra como a roupa foi feita», contou.

Catherine de Silveira, Julien da Costa, Flávia Aranha, Joana Barrios e Miguel Bento

Segundo Catherine da Silveira, o conceito de luxo está a mudar, aproximando-se precisamente da sustentabilidade e dos produtos «livres de culpa». «Antigamente, o luxo era um estatuto. Tinha que ser visível para os outros. A pessoa existia porque tinha esse sinal de luxo visível. Metade das pessoas já olha para o luxo como um conceito mais minimalista e responsável e quer peças livres de culpa e sustentáveis. É uma variável que vai construir a identidade da pessoa e é o único caminho para as marcas de luxo», avisou.

Contudo, a docente admitiu que «ainda estamos num momento de transição. Ainda faltam alguns anos para alguns consumidores perceberem que não precisam de ter umas sapatilhas Balenciaga para se sentirem bem no seu grupo».

De quem é a culpa?

«Afinal, de quem é a culpa da falta de transparência e do impacto ambiental da indústria da moda: as marcas ou as pessoas?», questionou Joana Barrios.

Para Miguel Bento, a responsabilidade vai para as marcas «porque jogam com a ignorância do consumidor e não dão informação propositadamente».

Já Catherine da Silveira defendeu que a culpa «é do ser humano». «É a evolução da nossa civilização. O ser humano precisa de alguma coisa para existir na nossa sociedade e quer construir a sua identidade baseada no luxo. O ser humano cresceu com esta necessidade de se integrar. As marcas estão lá para transformar esta visão em produto ou experiências», explicou.

Por seu lado, Flávia Aranha assegurou que se trata de «uma relação simbiótica», acrescentando um terceiro elemento: a falta de regulamentação política. «Nem um nem outro muda sem regulamentação. Se depender só do desejo das marcas e dos consumidores, há uma grande probabilidade de ficarmos assim para sempre», avisou.

Das performances aos desfiles

Ainda antes da Fast Talk, a reflexão da ModaLisboa começou a ser feita com as coleções cápsulas de quatro jovens designers: António Castro, Cristina Real, David Pereira e Filipe Augusto.

Em vez dos habituais desfiles, os designers apresentaram as suas propostas para o outono-inverno 2019/2020 através de performances, entre teatro e dança. Durante uma hora, dividiram as Carpintarias de São Lázaro com as fotografias de Jorge Molder, no âmbio da exposição “Jeu de 54 Cartes”.

Esta sexta-feira, a ModaLisboa ruma ao Pavilhão Carlos Lopes, onde desfilam os concorrentes do Sangue Novo, Duarte, Carolina Machado, Valentim Quaresma e Ricardo Preto. A festa da moda na capital decorre até domingo e, além dos desfiles, conta ainda com uma exposição de calçado português promovida pela Apiccaps e com o Showcase ModaPortugal, uma instalação que conjuga moda, tecnologia, sustentabilidade, lifestyle, arte e design, através de exemplos de produção industrial e criatividade nacional, com o objetivo de proporcionar uma experiência tanto visual quanto táctil sobre as propostas de moda de algumas marcas portuguesas, assim como de designers presentes nesta edição da ModaLisboa.

David Pereira