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«Vamos procurando o melhor negócio no mercado»

Com um negócio praticamente vertical, que inclui tricotagem, tingimento, acabamentos e confeção, a Samofil tem feito investimentos para ser mais eficiente e rápida. Os irmãos António e Joaquim Sacramento, que lideram a empresa, estão agora a apostar mais fortemente na internacionalização.

Joaquim e António Sacramento

Fundada em 1979, a Samofil assumiu, desde logo, a verticalidade do negócio para conquistar o seu lugar no mercado. 40 anos depois, a empresa vende malha acabada, peça confecionada e serviços, mantendo a tricotagem, o tingimento, os acabamentos e a confeção dentro de portas, o que permite responder rapidamente, e de forma quase absoluta, aos pedidos dos clientes.

Com novos investimentos a serem implementados, incluindo novos equipamentos que permitiram reduzir a fatura energética em cerca de 15%, a Samofil, que tem já a terceira geração a dar os primeiros passos no negócio, está também a expandir a sua estratégia de internacionalização, com as próximas escalas marcadas para Milão e Vilnius.

A Samofil faz 40 anos em 2019. Quais são as grandes mais-valias desta empresa hoje?

Joaquim – É uma empresa que começou quase do nada, de uma máquina circular e uma pequena confeção com três ou quatro máquinas de costura. Cresceu com os anos e hoje o grande valor é ser uma empresa vertical, com cerca de 140 trabalhadores. Tem tricotagem e acabamentos e é isso que nos dá a força para crescer.

António – Com 14 ou 15 anos, recordo-me perfeitamente que quando chegava da escola, ainda ia para o meio da pequena confeção tentar ajudar. Quando deixei de estudar, foi para a fábrica que vim trabalhar. Também não conhecia outra profissão, nem o meu irmão. É isto que sabemos fazer e espero que seja isto que vamos continuar a fazer pelo resto da vida.

A fábrica foi construída de raiz?

António – Exatamente. Como a maioria delas naquela altura, construíam-se 800 ou 1.000 metros quadrados, achávamos que era uma coisa que chegava e sobrava. Passados uns anos, era necessário construir ao lado mais outro tanto e foi crescendo aos poucos. Fomos fazendo investimentos na área da tecelagem e, como tínhamos excedentes de malhas relativamente àquilo que consumíamos na confeção, começámos a vender malhas em cru e acabadas. Em 1997, decidimos investir na unidade de tingimento e acabamentos, ainda um sonho do meu pai.

A empresa é familiar e tem já a terceira geração a trabalhar. Que perspetivas isso dá?

António – É um momento muito importante para as nossas vidas, principalmente estando no ramo de atividade em que estamos e acrescido pelo facto de ter a minha filha a iniciar uma atividade neste ramo. É importante pela idade, porque sentimos que aos 50 e tais anos já temos de começar a preparar a sucessão, porque isto leva o seu tempo. Por outro lado, será que os sucessores têm capacidade ou não, ou vão ou não ser capazes de fazer seguir o negócio? E por fim, porque não questionarmo-nos também se vamos deixar as empresas aos nossos sucessores em condições de viabilidade. Também é importante pensarmos nisso.

Qual é hoje o modelo de negócio da Samofil?

António – A Samofil, por ser uma empresa vertical, é um bocadinho lenta na mudança, como qualquer empresa que compra fio e vende peças acabadas. Não é tão fácil para nós mudar de modelo de negócio ou do que vamos produzir, precisamente por causa dessa inércia de uma empresa vertical. Vamos procurando o melhor negócio no mercado, dentro das nossas capacidades de produção e sem fazer grandes alterações à máquina produtiva, como é óbvio.

Mas trabalham essencialmente grandes quantidades, por exemplo para a Inditex?

António – Nem por isso. Para a Inditex fazemos trabalho indireto, enquanto prestador de serviços, mas provavelmente terá 5% a 10% da nossa produção. Não temos ligação nem estamos dependentes desses grandes compradores. Mas também não temos uma estrutura tão ágil quanto necessária para fazer só pequenas séries de valor acrescentado. Estamos no meio, como se costuma dizer. Não sei se é no meio que está a virtude, mas vamos tentando fazer um pouco de tudo. Claro que têm de ser negócios que tenham rentabilidade, que nos deixem ficar alguma margem. Esse jogo tem que ser feito quase diariamente. É preciso traçar o objetivo, agora a forma como chegamos a esse objetivo é que às vezes temos que dar muitas voltas, porque o mercado assim obriga. O mercado não está fácil, obriga-nos a ter algumas oscilações pelo meio do percurso.

Em que áreas foi efetuado o recente investimento de 2,7 milhões de euros?

António – A maior concentração de investimento foi nos acabamentos. O projeto de investimento começou pela tecelagem com a aquisição de mais três teares, o corte na área da confeção e o restante foi feito nos acabamentos. Nos acabamentos foi desde máquinas de tingir novas, uma râmula, permutadores para aproveitamento de energia, principalmente o ar quente das râmulas para aquecimento de água e para aproveitar a água quente que sai da tinturaria para aquecer a que entra para o processo também. E também em mais de 300 mil painéis fotovoltaicos.

Essas medidas na área energética permitiram reduzir a fatura?

António – Há uns anos atrás a poupança energética não tinha importância, ninguém pensava nisso. Hoje tem de ser pensada. É um dos fatores importantes, porque tem um peso muito grande, principalmente na área dos acabamentos. Já tivemos no passado mais ou menos recente situações em que a fatura do gás e da eletricidade foram superiores à mão de obra da empresa. Isso é inadmissível. Um estudo feito por uma estagiária de engenharia, que pediu para fazer cá um trabalho, apontava para uma poupança de 13 mil euros/mês. Eu sou um bocadinho mais cético, aponto para que sejam 10 mil euros/mês. Em média pagamos 70 mil euros em energia e gás por mês, nesta unidade, portanto estamos a falar de uma poupança de 14% ou 15%, o que é excelente. Esse foi o principal foco de investimento e depois foi modernizar algumas máquinas de tinturaria, para máquinas mais recentes, que têm relações de banho mais baixas e uma capacidade de reprodutibilidade da cor bastante melhor.

Qual foi o objetivo da aquisição dos novos teares?

António – A aquisição de novos teares foi, por um lado, para diversificar, para criar alguns pontos de malha que não fazíamos, jogos grossos, que não tínhamos. Não somos especialistas em nada, somos bastante flexíveis, daí que temos que ter equipamentos e máquinas flexíveis também, para que se o cliente quiser comprar uma peça em ponto americano ou ponto italiano, em jersey ou em jacquard, possa comprar. Ou seja, tentámos dar resposta a quase tudo. À dimensão que temos é necessário ter essa flexibilidade, porque o cliente, quer seja o nosso cliente de peça feita, quer seja o cliente que vem comprar a malha acabada ou malha em cru, hoje quer este ponto, amanhã quer aquele, e temos que ter essa versatilidade.

O que veio mudar o corte automático?

António – O corte automático, essencialmente, além da rapidez, veio dar-nos uma perfeição que era impossível ter no corte manual. Quando estamos a falar de peças pequeninas, com muitos detalhes, por exemplo roupa interior, é necessário um corte muito preciso e isso consegue-se com corte automático.

Há novos investimentos no horizonte?

António – A fábrica nunca está totalmente atualizada, precisa sempre de mais investimentos. Não podemos deixar que os equipamentos se tornem obsoletos. Sabemos sempre que deveríamos ter mais isto ou mais aquilo, só que o mercado é que terá de ditar se realmente há ou não há condições para avançar para outros investimentos. Por exemplo, na área da estamparia, estamos apenas com estamparia convencional, a pigmentos. Nunca avançamos para a área digital, porque achamos que não teríamos clientes para pagar aquilo que é necessário na digital com corantes reativos. Hoje em dia estão a ser lançadas máquinas digitais a pigmentos, portanto já estamos mais à vontade. É uma possibilidade no médio prazo.

Como surge a aposta na exportação?

António – Os meus pais começaram o mercado interno, como toda a gente que está a começar uma atividade. É o mais fácil. Em 84/85 começámos a fazer as primeiras exportações. A primeira foi para França, de slips. Depois começámos a exportar para a Suíça, muito na área da roupa interior, que era essencialmente aquilo que confecionávamos. E chegamos a ter um volume interessante, uma percentagem bastante grande do nosso volume de negócio para exportação direta. Em 1997, os chineses estavam a fazer-nos uma concorrência brutal nessa área de negócios e resolvemos, sem qualquer pudor e sem qualquer problema, acabar com as exportações – o mercado nacional era melhor negócio. Há uns anos tivemos que inverter outra vez o sentido e começar a exportar novamente, porque o mercado nacional não compra e o que compra, compra a preços que não é possível produzir. Portanto, temos que dançar um bocadinho em função da música.

Quando retomaram a internacionalização do negócio?

António – Há sete ou oito anos. Começámos a procurar e a fazer contactos com possíveis clientes. A partir de 2018 começámos também a participar nalgumas feiras.

Que mercados têm procurado privilegiar?

António – Espanha, Marrocos e Áustria são os principais na malha acabada. Já temos o mercado espanhol há bastante tempo. E Marrocos porque estão a ser para lá deslocadas confeções. Se eles não têm produção de malha, não têm acabamentos, precisam de comprar a malha acabada.

E na área da confeção?

António – Trabalhamos essencialmente com 12 países. Fora da Europa, temos o Dubai. Espanha é o mais forte – trabalhamos, por exemplo, com o El Corte Inglés. Em França ainda temos dois ou três clientes, não muito grandes mas que vão repetindo. E depois temos Inglaterra e Alemanha. Não estamos a fazer feiras de peças confecionadas. Mantemos aqueles clientes que temos e vamos fazendo um forcing para aparecer outros. Tanto nos aparece o indivíduo do Dubai para fazer 70 polos para a família real ir à caça, como aparece o francês que quer umas camisolas interiores a um preço competitivo para vender.

Joaquim – A maior dificuldade que estamos a ter na confeção é o preço, não conseguir ter preço. A Turquia está a estragar um bocadinho o nosso mercado.

Há novos mercados na linha de mira?

António – A prioridade é consolidar. Mas há novas feiras que vamos fazer, por exemplo, a Milano Unica, em julho, e a Baltic Fashion & Textile, em outubro. Claro que ao fazermos essas feiras estamos à procura de mercados novos.

Como correu 2018?

António – Apesar de ter sido um ano mau, fiquei surpreendido por só ter reduzido ao volume de negócios cerca de 60 ou 70 mil euros. Portanto, ficamos na mesma, próximos dos 6,4 milhões de euros, que era o volume de negócios de 2017. Este ano começou muito mal, mas estranhamente temos vindo a manter o volume, aliás, subiu ligeiramente nos primeiros cinco meses.

Quais são as metas para o corrente ano?

António – Tinha estabelecido a meta de crescer cerca de 10%, mas chegar lá vai ser difícil, a não ser que algo mude no próximo semestre. O objetivo era aumentar 10% às exportações todos os anos e isso estamos a conseguir.

Que ambições têm para a Samofil?

António – Ficarei feliz se daqui por mais uma década ou duas a Samofil continuar no mercado, a ser pelo menos aquilo que é: competitiva, com saúde financeira e com saúde de produção em termos de equipamentos. Não temos, de forma alguma, ambições para transformar isto no dobro ou no triplo.