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Venda da Myer cria oportunidades globais

Coles Myer, um conglomerado que inclui supermercados e as versões australianas da Kmart e Target, vendeu a sua divisão de ”department stores” à Newbridge Capital por 1,4 mil milhões de dólares australianos no passado dia 13 de Março. A Newbridge nomeou Bill Wavish, que tem já uma longa história em comum com Coles Myer, presidente executivo, que terá como função diminuir os custos e injectar algum estilo na Myer para que os novos donos consigam fazer renascer esta cadeia “doente”. Mas são as dimensões globais deste acordo que realmente chamam a atenção, já que a Newbridge Capital é a divisão asiática do Texas Pacific Group, que também possui a Neiman Marcus e a Bergdorf Goodman nos Estados Unidos e parte da Debenhams no Reino Unido. Alguns analistas acreditam que a cooperação Debenhams-Myer-Neiman Marcus irá permitir desenvolver economias de escala significativas quando compradas por fornecedores e dará também a cada loja um novo acesso, e talvez inesperadamente, marcas de designers. A Myer, por exemplo, tem boas relações com designers australianos e com um número de marcas asiáticas, que normalmente não estariam expostas aos clientes ocidentais. Rocky romance A primeira loja da Myer foi fundada em 1900 pelo imigrante russo Sidney Myer mas só em 1985 é que a cadeia surgiu com os supermercados Coles – um casamento que teve já mais altos e baixos do que um romance de Hollywood. O relacionamento tornou-se particularmente difícil nos últimos tempos dada a luta da Coles para se manter ao nível do seu rival, a cadeia de supermercados Woolworths.Quando a venda foi anunciada no final do ano passado, a Newbridge Capital tinha como companheiros os descendentes da Sidney Myer para fazer uma oferta. Outras ofertas apareceram da CVC Capital (ironicamente a parceria da Texas Pacific na compra da Debenhams), da loja local da Harvey Norman edo retalhista sul-africano Edgars Consolidated. Alguns promotores de desenvolvimento de propriedades também fizeram uma oferta para a “flagship” da Myer em Melbourne, a qual Coles Myer estava a considerar vender separadamente (esta ideia apenas deixou de existir na semana passada quando a Newbridge surpreendentemente fez uma oferta para todas as divisões). Sabe-se que a Edgars, que opera em mais 700 lojas na África do Sul, era inicialmente o favorito neste guerra de ofertas. A empresa, como muitas sul africanas, tem estado “desesperada” para comprar um negócio internacional para aumentar a sua margem de exposição. Mas, a Edgars opera na linha do baixo e médio preço e isto é considerado um problema para a Coles, que quer um comprador que possa levar a Myer cada vez mais além no mercado, para competir com o rival David Jones, e não ir para um segmento de mercado mais baixo onde a Myer iria competir com as cadeias de desconto da Coles, Kmart e Target. O verdadeiro trabalho começa Agora que a Newbridge Capital ganhou, o verdadeiro trabalho vai começar, dado que a Myer é uma empresa com graves problemas. Tem apenas um terço das lojas da Debenhams mas, com 25 mil funcionários, quatro vezes mais pessoas a trabalhar em cada uma. Algumas das lojas suburbanas e do resto do país parecem ter sido moldadas para o palco da série televisiva de 1970 “Are you being served” – «Está a ser atendido» -, e fora dos principais centros urbanos as roupas indicam um regresso a quando a moda australiana era constituída por chapéus com elásticos. Numa tentativa de manter as vendas, a Myer tornou-se cada vez mais dependente das vendas de artigos com descontos até cerca de 50 por cento. Os analistas alertam que esta situação está a levar a uma cultura de espera entre os consumidores, que estão a evitar fazer compras até que uma outra venda seja anunciada. O analista da White Funds Management Atul Lele explicou que «a Myer está presa entre o retalho de alto nível onde o seu concorrente é a David Jones e o de baixo nível onde concorre contra a Kmart e a Target». «Está situada no meio em termos de estratégia de marca e parece não saber que caminho quer tomar. A Myer esteve também confiante no retalho de desconto para conseguir vendas e isto causou a compressão das suas margens de lucro». Com custos elevados e poucas vendas não surpreende que a Myer esteja a lutar contra a David Jones, que construiu a reputação de outlet principal para a alta moda. A UBS prevê que a David Jones está a produzir margens de lucro de 5 a 10 por cento por ano em comparação com os 1,5 a 2,5 por cento da Myer. Potencial elevado Mas estes problemas são exactamente o tipo de dilemas que atraias sociedades de capitalde risco porque o potencial para melhorar é bastante elevado. De facto, a Newbridge vai ser capaz de transpôr o modelo quase intacto de reviravolta da Debenhams: cortar custos e depois usar o dinheiro para investir em lojas, imagem e marcas exclusivas. A Debenhams foi comprada por 1,7 mil milhões de libras britânicas em 2003 e os analistas prevêem que possa valer 3 mil milhões de libras se voltar a estar presente na bolsa de mercados ainda este ano. Dado o potencial de reviravolta na Myer é talvez surpreendente que mais ofertas não tenham sido apresentadas. O preço de 1,4 mil milhões de dólares australianos ficou além da grande parte das expectativas (as previsões dos analistas para o preço total estavam situadas entre os 900 mil e os 1,1 mil milhões de dólares australianos), mas mesmo a oferta vencedora foi uma forma relativamente barata de entrar no ambiente restrito do retalho australiano. O isolamento geográfico levou ao estabelecimento de duopólios em vários sectores porque, nos anos mais recentes, o mercado australiano simplesmente não conseguiu suportar mais empresas. Agora, esses duopólios (Foster e Lion Nathan na cerveja; Coles e Woolworths nos produtos não-alimentares; Myer e David Jones no vestuário) são incontestáveis, sendo por isso que empresas como a Wal-Mart e a Tesco têm evitado a Austrália apesar das semelhanças óbvias com os seus próprios mercados internos. A aquisição da Myer é então uma oportunidade única e, se a reviravolta for bem sucedida, haverá um considerável potencial de lucro. No entanto, é o elemento internacional desde acordo que poderá ter o último impacto. Se a Texas Pacific puder encontrar sinergias com outras holdings será possível criar um grupo de “department-stores” que abranja três continentes.