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«Vender conhecimento é como vender umas férias»

A inovação começa por ser uma ilusão que pode demorar anos a dar frutos. Um debate promovido pelo CeNTI e pelo INL trouxe à ribalta o marketing que traz o conhecimento para o mercado.

Carlos Brito

O conhecimento também precisa de marketing e a inovação não chega às montras se não for vendida a empresas e consumidores. A conferência “Nanotecnologia: do Norte de Portugal para o mundo, o marketing na afirmação dos novos descobrimentos do século XXI”, organizada pelo CeNTI – Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes e pelo INL – Iberian Nanotechnology Laboratory, debruçou-se sobre as falhas que ainda existem nas universidades e empresas quando chega a hora de levar o produto do conhecimento ao mercado. Carlos Brito, da Universidade do Porto, explicou que «a investigação é diferente da inovação. Inovar é criar valor com base em novas soluções».

O docente afirmou que nem sempre instituições como as universidades têm noção da importância do valor da marca. «Vender conhecimento e tecnologia é quase como vender umas férias porque é uma grande ilusão. Nem sempre está testado, demora anos a ir para o mercado. É um sonho», esclareceu. Neste caso, se a organização for reconhecida, como é o caso, por exemplo, da Universidade de Stanford, a tecnologia desenvolvida pode ser mais fácil de vender. «Temos uma patente com a universidade do Texas, com a colaboração de um potencial prémio Nobel, e são eles que vendem, porque a marca vale mais do que a do Porto», exemplificou Carlos Brito. «Quando vendo conhecimento, estou a vender uma expectativa de ganhos futuros. E não posso esquecer que as empresas querem soluções e não papers. Temos que apostar no que nos diferencia e perceber qual o utilizador final da solução», defendeu o professor.

Albertino Oliveira

Albertino Oliveira, diretor comercial e de marketing da Sedacor, trouxe a experiência da empresa na área da inovação em cortiça. «Costumo dizer nas minhas conversas que a cortiça é a especiaria portuguesa do século XXI», sublinhou o diretor comercial da Sedacor. «Não temos um orçamento de marketing que facilmente coloque coisas no mercado, se tivermos algo diferenciador essa é a única forma», afirmou. E entre as características que destacam a Sedacor está a sustentabilidade como modelo de negócio. «Estamos na economia circular há 70 anos aproveitando os desperdícios das rolhas, mais de 90% do nosso desperdício é aproveitado. Temos um elemento de diferenciação e de identificação», revelou à audiência.

Entre os últimos projetos da Sedacor está o Cork-a-Tex, de fio de cortiça, com a Universidade do Porto, o Citeve e a Têxteis Penedo. O objetivo é produzir têxteis com cortiça (ver Têxtil e cortiça um casamento feliz). O grupo já tem bastante historial acumulado neste segmento, com inovações como tecido de material reciclado, uma bola de futebol, um colchão, assim como pavimento de rolo, tudo em cortiça.

Outro exemplo de como o marketing e a imagem são importantes na venda de um negócio é o restaurante Ferrugem, em Famalicão. Renato Cunha, chef e fundador do espaço, que se destaca por apresentar de outra forma a culinária nacional, foi à conferência dar conta de como conseguiu colocar o seu projeto no mapa.

Renato Cunha

«Não é um restaurante urbano, tem por base a cozinha portuguesa, mas de uma maneira totalmente contemporânea. Não é para ter uma refeição diária e sim uma experiência do que é português. Queremos apresentar a gastronomia portuguesa de forma diferente com outra roupagem e apostando na hospitalidade», referiu. Quando o Ferrugem foi fundado, há 12 anos, Renato Cunha não investiu só dinheiro no projeto. «Tirei muito partido das tecnologias. Tinha uma newsletter, alimentada com dados pessoais», adiantou. Ainda que nos dias de hoje as novas leis de proteção de dados pessoais tenham alterado muito a forma como se aplicava este tipo de instrumentos, Renato Cunha ultrapassou os obstáculos e apostou nas redes sociais e numa reformulação do site para que o Ferrugem se mantivesse na crista da onda. As contas do Instagram e do Facebook são o principal meio através do qual o restaurante comunica com a comunidade. Entretanto, Renato Cunha lançou um voucher através do qual, numa embalagem premium, é possível oferecer um jantar no Ferrugem. Uma refeição para duas pessoas custa, no mínimo 100 euros, o que mostra que o restaurante de Renato Cunha já se posicionou num segmento elevado.

Braz Costa

Braz Costa, CEO do CeNTI, concluiu que, nos dias de hoje, é preciso ter em conta «quais os instrumentos que poderemos usar para ter uma comunicação com as empresas que possibilite que se estabeleçam as pontes entre o conhecimento que é gerado e a produção». O marketing e a comunicação são fundamentais para isso.