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Ventos de mudança na moda

A semana de moda de Londres enfrentou vários desafios devido às preocupações ambientais estarem no centro das atenções. Entre as principais tendências estão os casacos volumosos, os fatos elegantes e ainda a temática da destruição ambiental global.

Burberry

Se Nova Iorque ficou marcada pelo choque tecnológico, já na capital britânica foram as questões climáticas que mais ondas fizeram. A abertura do evento foi, aliás, interrompida por uma intervenção do grupo Extinction Rebllion, que derramou sangue falso no local para simbolizar os danos que a indústria de moda causa ao ambiente.

No âmbito da campanha Second Hand September, a Oxfam apelou aos consumidores apenas a compra de roupa usada durante o mês todo. A iniciativa foi apoiada pela designer Vivienne Westwood, que revolucionou a passerelle da estação passada, com o mote das mudanças climáticas e a colaboração da modelo Lily Cole. Enquanto o British Fashion Council divulgou a iniciativa, o The Institute of Positive Fashion esperava que as empresas criassem uma indústria com modelos de negócio mais ecológicos.

A indústria de moda é, de facto, uma das mais prejudiciais do mundo e alguns estudos mostram que é responsável por cerca de 10% de todas as emissões de gases de efeito estufa. A par disto, os britânicos são os maiores compradores de roupa nova da Europa, segundo a Oxfam. A designer Safia Minney, da marca de moda ética People Tree, juntou-se à Extinction Rebellion, e seguiu o exemplo da Suécia ao cancelar a participação na semana de moda de Londres com o argumento de que a indústria é «fundamentalmente insustentável». Em declarações à Thomson Reuters Foundation, a designer destacou que «é extraordinário que continuemos numa espécie de circo de moda tendo em conta a crise que enfrentamos».

Victoria Beckham

Os organizadores da semana de moda de Londres responderam às críticas assegurando que oferecem uma plataforma que promove a sustentabilidade e que a moda de autor não deve ser culpada pelos pecados da chamada “fast fashion”. «Estamos a enfrentar uma mudança climática urgente e todos precisamos de agir», escreveu Caroline Rush, CEO do British Fashion Council, entidade organizadora da semana de moda de Londres, numa carta dirigida ao Exctinction Rebellion, que foi disponibilizada online por este último. «A indústria de moda precisa de mudar do interior e… no British Fashion Council temos o papel de reunir recursos, conhecimento e orientação para criar essa mudança», assumiu.

A pressão da sustentabilidade

As marcas estão a enfrentar uma pressão enorme, tanto por parte dos consumidores, como de outras marcas que temem que as mudanças climáticas possam afetar o seu modelo de negócio. Uma aliança de 32 dos maiores grupos e marcas de moda do mundo publicou, no mês passado, um manifesto com objetivos e metas que minimizem o impacto da indústria no clima, nos oceanos e na biodiversidade.

Apesar dos designers experimentarem cada vez mais materiais inovadores, esquemas de reciclagem e até mesmo vestuário digital, alguns ativistas climáticos descartam esta mudança como sendo “greenwashing”, uma vez que se deve começar por abordar a raiz da problemática. A organização de solidariedade Oxfam assegura que a indústria de moda britânica cria mensalmente uma pegada de carbono maior do que pilotar um avião à volta do mundo 900 vezes. A produção de uma camisola de algodão gera a mesma quantidade de emissões do que conduzir 55 quilómetros.

Para a indústria de moda subsistir, é necessário a mudança de forma a oferecer experiências exclusivas, novas plataformas e modelos diferentes, em vez de produzir cada vez mais roupa, defende Jennie Rosen, CEO do Swedish Fashion Council. «Mudar de algodão convencional para algodão orgânico não é suficiente. E nem outra semana de moda» explicou de modo a esclarecer a decisão de cancelar a semana de moda de Estocolmo, com o objetivo de se concentrarem em alternativas mais sustentáveis. «Precisamos de impelir todo o sector para uma mudança sistémica total e é necessário agir agora». Alguns atores da indústria da moda apoiaram a mudança de estratégia sueca, mas a campanha a favor do clima teria mais impacto se um dos grandes desfiles fosse cancelado – Londres, Paris, Milão ou Nova Iorque.

Richard Quinn 

A fundadora da marca de moda sueca House of Dagmar, Karin Soderland, considera que «as pessoas acham que foi uma boa decisão… aqueles com quem falei acham que algo realmente bom pode resultar disso». Ainda assim, na perspetiva de outros, a semana de moda foi o alvo errado.

Atacar a semana de moda de Londres também revela preconceito contra a indústria que emprega e serve principalmente mulheres, garante Sophie Slater, cofundadora da empresa de moda social Birdsong. «A maioria das marcas presentes na semana de moda são pequenas, designers artesãos que geralmente priorizam mais a sustentabilidade do que a high street. A indústria de fast fashion continuaria a vender-nos quantidades infinitas de coisas e a destruir o meio ambiente mesmo que a semana de moda não existisse», explica à Reuters.