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Verde limpa escravatura

Com a indústria mundial de algodão sob escrutínio devido às constantes acusações de trabalho forçado e infantil e de poluição do meio ambiente, cada vez mais empresas ocidentais estão a trabalhar em parceria com os agricultores para “limpar” a fibra natural líder na indústria da moda – bem como a sua complexa cadeia de aprovisionamento.

Com luvas grossas e um xaile, Kanchen Kanjarya colhe algodão na sua pequena fazenda em Mayapur, no estado de Gujarat, na Índia, prestando um interessante depoimento à agência Reuters sobre a nova vida da matéria-prima no país. Kanjarya, de 42 anos, trabalha oito horas por dia, fornecendo algodão para fábricas de confeção de vestuário de marcas ocidentais.

Contudo, ainda que os dias sejam longos e o calor aperte, podendo atingir os 35 graus, Kanchen Kanjarya está satisfeita por estar entre o pequeno número, mas crescente, de agricultores que está a ser formado para cultivar algodão sustentável que pode reduzir a utilização de água e produtos químicos e melhorar os lucros.

Kanjarya é uma das 1.250 mulheres agricultoras de Gujarat, o maior produtor de algodão da Índia, participando de uma série de pequenas iniciativas lideradas por empresas para combater os problemas ambientais e erradicar o trabalho infantil.

Nos últimos três anos, estas agricultoras tiveram formação de campo duas vezes por mês em técnicas de agricultura sustentável, abordando a eficiência energética, pesticidas naturais ou saúde do solo.

O programa da CottonConnect e financiado pela retalhista Primark deverá alcançar os 10 mil agricultores em seis anos, de acordo com os seus promotores. Noutras regiões da Índia, a fundação C&A está a trabalhar com vários grupos para ajudar 25 mil agricultores a fazerem a transição para o algodão orgânico. Já a Better Cotton Initiative, criada em 2005, conta com quase 1.000 membros, incluindo retalhistas como a Ikea, H&M, Burberry e a Adidas, comprometidos com práticas de trabalho justas e uso regulamentado de terras, produtos químicos e água.

«As empresas querem, cada vez mais, envolver-se na produção de algodão», afirma Alison Ward, diretora-executiva da CottonConnect, fundada em 2009 e que trabalha diretamente com os agricultores em questões sociais e económicas. Ward nota que apenas 10% a 12% do algodão é sustentável e que irá requerer tempo, esforço e investimento mudar para técnicas agrícolas que possam aumentar os lucros e combater os abusos laborais num segmento historicamente atormentado pela escravidão.

Especialistas da indústria ressalvam que a cadeia de aprovisionamento de algodão é a mais difícil de controlar, considerando a sua complexidade e etapas. A indústria mundial de algodão é, também, vasta, estimada em cerca de 250 milhões de pessoas em cerca de 85 países, muito deles pobres, com cerca de quatro milhões de produtores de algodão só na Índia.

Em 2016, um relatório do Departamento do Trabalho dos EUA encontrou trabalho forçado no algodão em oito países – com o Uzbequistão e o Turquemenistão condenados pelo trabalho forçado conhecido pelo estado – e trabalho infantil em 17 países, incluindo a Índia.

A Índia, segundo maior produtor de algodão do mundo depois da China e à frente dos EUA e do Paquistão, é o único país acusado de trabalho infantil e forçado tanto na produção de sementes como no cultivo de algodão. Em 2014, o grupo indiano Glocal Research descobriu que o número de menores de 14 anos a trabalhar em fazendas de algodão tinha duplicado desde 2010, para os 200 mil.

O diretor do Glocal Research, Davuluri Venkateswarlu, menciona ainda uma pesquisa recente que mostra que a situação não mudou. Mais do que isso, uma lei recentemente promulgada permite que os menores de 14 anos trabalhem numa empresa familiar desde que também frequentam a escola.

Venkateswarlu acredita, porém, que a intervenção de grupos como a Better Cotton Initiative e a CottonConnect estejam a ajudar a colocar um travão nestes casos.

Com a complexidade e a falta de transparência na cadeia de aprovisionamento de algodão, as marcas internacionais estão cada vez mais envolvidas – salvaguardando a sua reputação e o cumprimento de compromissos éticos.

Katharine Stewart, diretora de comércio ético e de sustentabilidade ambiental da Primark, sublinha que a empresa se propôs a encontrar uma alternativa ética e sustentável para produzir algodão ao mesmo preço do algodão convencional. A Primark, detida pela Associated British Foods, vende peças como t-shirts a 5 dólares (aproximadamente 4,70 euros) em 11 países e está constantemente sob pressão para explicar como consegue preços tão baixos sem explorar os trabalhadores.

Stewart esclarece que a retalhista, com um modelo de negócios de grandes quantidades e baixo custo, procura assegurar que todos os trabalhadores sejam bem tratados nas fábricas fornecedoras e que estes recebam pelo menos o salário mínimo com auditorias regulares, mas que ambiciona também controlar a cadeia de aprovisionamento.

«Estamos a tentar fazer algo a respeito do algodão e as pessoas estão a observar atentamente o que estamos a fazer», refere Stewart. «Mas é preciso escolher o que se vai priorizar. Não se pode fazer tudo de uma vez», destaca.

Patricia Jurewicz, diretora da Responsible Sourcing Network e mentora da iniciativa Yarn Ethical and Sustainably Sourced (YESS), que trabalha com as fiações, defende que a cadeia de aprovisionamento de algodão continua manchada, apesar das tentativas que procuram limpá-la. «Há melhorias… mas há um longo caminho a percorrer», conclui.