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Vestuário com potencial nanotecnológico

Embora a nanotecnologia – meramente o uso de nanómetros, a bilionésima parte do metro, para alterar a estrutura das fibras a fim de melhorar o seu desempenho – não seja inteiramente nova, as aplicações na indústria têxtil estão apenas a principiar e as suas promessas de ultrapassar as expectativas dos consumidores sobre o seu vestuário são cada vez mais reais.

A nanotecnologia é mais do que uma extraordinária estratégia de marketing e publicidade e a sua interligação com a procura do mercado é evidente. De acordo com o grupo NPD, “a quantidade de vestuário com características de performance vai chegar a 25% dos 170 mil milhões de dólares da indústria do vestuário americana nos próximos 5 anos. A investigação Greenfield conclui que “4 em cada 5 pessoas procuram características de desempenho aquando da compra de vestuário moda ou casual”. Enquanto que a Fundação Nacional da Ciência adianta que “vão ser necessários 2 milhões de trabalhadores nos próximos 15 anos para responder às necessidades mundiais das indústrias ligadas à nanotecnologia”.

Não unicamente por isso, mas muitos peritos em vestuário acreditam que os tipos de inovações oferecidas pelas aplicações da nanotecnologia – mancha, ruga, odor e humidade, para referir apenas algumas – serão a força condutora da rentabilidade do mercado, estimulando o interesse do consumidor pela moda e oferecendo aos compradores não só uma razão para gastar em vestuário com mais-valias, mas também para pagar o preço justo.

«As nanopartículas – a milonésima parte de um grão de areia, de acordo com a empresa americana Nano-Tex – permitem um melhor desempenho das fibras inerentes. A Nano-Tex, por exemplo, utilizou esta tecnologia para melhorar a arquitectura das moléculas à escala nano», declara David Offord, responsável científico superior na Nano-Tex. «Utilizamos como analogia a construção de um muro de tijolo. Se tentar construir uma barreira atirando tolamente tijolos para uma pilha, usará muitos tijolos e o muro não será muito firme. Se construir inteligentemente um muro ordenado com alguns tijolos compactos, usará menos tijolos e toda a estrutura será mais firme. É desta forma que os nossos tratamentos actuam no tecido – utilizamos menos material para obter um resultado superior».

Utilizando a tecnologia à escala nano, as empresas são capazes de conferir determinadas propriedades específicas aos tecidos ou melhorarem de modo geral o seu desempenho. A Schoeller, por exemplo, criou a NanoSphere, um acabamento repelente da sujidade, óleo e água que oferece níveis de desempenho mais elevados que outros tratamentos não-nanotecnológicos existentes no mercado.

«Isto deve-se ao facto das moléculas usadas nesta tecnologia aderirem permanentemente às fibras em vez de apenas revestirem a superfície, e não partirem com a lavagem», explica Sheree Hallaran, director de marketing da empresa. «O maior benefício é que oferece performance sem sacrificar o conforto do tecido».

A oportunidade de modificar a natureza dos tecidos significa essencialmente que o mercado tem as portas abertas para os produtos melhorados pela nanotecnologia. A Schoeller utiliza correntemente o seu tratamento em vestuário infantil, luvas médicas, vestuário de trabalho e outros, e está apenas no princípio.

Os peritos prevêem um grande desempenho desta tecnologia no mundo da moda, particularmente no vestuário de criadores: os consumidores que pagam altos preços por artigos de luxo querem que estes durem, além da tranquilidade que representa saber que o derramamento de um copo de vinho sobre uma caríssima camisa de seda não representa o seu fim (se a mesma for fabricada a partir de tecidos melhorados através de nanopartículas).

As pesquisas da Nano-Tex revelaram que os consumidores querem características de alta performance em tudo, desde gravatas até fatos. E com a nanotecnologia é possível manipular o mais delicado dos tecidos sem prejuízo das suas propriedades inerentes de toque e cair.

«Estamos realmente no início de uma revolução na indústria do vestuário», afirma Mark Brutten, vice-presidente sénior de marketing da empresa. «Algumas categorias levam mais tempo a desenvolver do que outras, mas os interesses dos consumidores é visível em todo o tipo de vestuário, desde o mais desportiva ao mais fashion».

Empresas e designers como Gap, Hugo Boss, Marks & Spencer, Rene Lazard adoptaram sem reticências as aplicações da Nano-Tex.

Enquanto que os benefícios para os consumidores e para a imagem da marca são enormes, o valor acrescentado não resulta num preço desmesurado. Segundo Brutten, os tratamentos de nanotecnologia geralmente incrementam o preço da peça em 5 a 10% na etiqueta, que os retalhistas podem optar por absorver ou transferir para os compradores. No entanto, vantagens como conservar durante mais tempo um vestido de 3.000 dólares ou assegurar-se que a roupa dos miúdos resistem bem mais valem, para a maioria das pessoas, o custo adicional.

Mas a nanotecnologia traz também alguns desafios, nomeadamente em questões de marketing. «Um problema é que a “nano” é um tema quente da actualidade e muitas pessoas estão a comercializar produtos melhorados através da nanotecnologia que podem não corresponder a certas normas industriais, como a Bluesign, certificadora de que os produtos não prejudicam as pessoas, os animais ou o meio ambiente.

Outro desafio do marketing é que muitos consumidores não estão familiarizados com a nanotecnologia, nem os benefícios daí advindos. Por consequência, a indústria tem como missão não só educar os consumidores acerca de uma marca com nanotecnologia mas também sobre o próprio tratamento. «Os consumidores não sabem como encontrá-lo», declara Mark Brutten. «Outro desafio, como com qualquer tecnologia, é comunicar numa linguagem perceptível para os consumidores e o quanto pode melhorar as suas vidas».

Para além do marketing, o maior problema de vendedores como a Nano-Tex, a Schoeller e outros, é encontrar utilizações que correspondam às necessidades dos consumidores e depois executá-las no ambiente industrial. «Esta tecnologia é mais complexa do que qualquer outra que tenha historicamente surgido na arena da química», sustenta Offord. «Tivemos que sair da indústria têxtil para encontrar os químicos nas indústrias da biotecnologia e da electrónica capazes de produzir substâncias químicas que funcionem neste ambiente. Temos que dispor de processos prontos a funcionar numa fábrica sem novos equipamentos ou mudanças na forma de operar em ambiente de produção».

O lado bom é que todo este investimento em tecnologia, processos e investigação está a valer a pena, e promete continuar a valer muito mais no futuro. «Desconhecemos os limites desta indústria», afirma Mark Brutten. «Mas sabemos que estamos a realizar grandes avanços em novas inovações e numa maior penetração dos produtos existentes no mercado. Acredito firmemente que, no futuro, todo o vestuário terá características que lhe permitam um desempenho que venha facilitar a vida dos consumidores».