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Vestuário de outro Mundo – Parte 1

Nos últimos anos, os materiais inteligentes têm encontrado o seu lugar no mundo têxtil, galvanizando o interesse dos investigadores em ciência dos materiais, informática e electrónica, assim como designers de produtos e fabricantes de têxteis e de vestuário. A caminhada desde a génese da ideia até ao desenvolvimento do produto envolve pessoas de vários campos e backgrounds, sem esquecer os próprios utilizadores-finais. Uma das primeiras utilizações inteligentes dos têxteis foi de ordem militar: a camuflagem. Nesta aplicação, o têxtil tinha que camuflar veículos, equipamento e pessoal estacionado no campo de batalha da detecção por qualquer um dos 3 tipos de radiação electromagnética: visível, infravermelha e radar. Além disso, tinha também que ser resistente ao fogo, durável, com elevada resistência à tracção e de fácil fabricação. As estruturas que absorvem radar apresentam usualmente uma forma piramidal tridimensional fabricada em espuma com revestimento de carbono ou ferrite. Integrando a quantidade devida de prata, os valores da secção transversal do radar podem ser manipulados. Ao mesmo tempo, as características da infravermelha de um têxtil de malha de teia são controladas através de revestimentos de baixa emissividade compatíveis com o padrão e o estampado visual, que é concebido para sustentar a ideia do aspecto visual do meio ambiente para o qual é indicado. O vestuário do século XXI À medida que entramos no século XXI; cresce a procura de instrumentos leves e fáceis de transportar. Que melhor solução do que integrá-los nos têxteis? Por exemplo, a belga Starlab desenvolveu um fato de rasto com sensores que monitorizam o ritmo cardíaco do portador e envia os dados por e-mail para uma base, através de uma função de telefone móvel integrada na peça de vestuário. Noutro exemplo, a alemã Infineon Technologies produziu o primeiro leitor MP3 vestível, com um teclado integrado na manga do artigo. Com base nestes avanços, o desenvolvimento de “vestuário informático” pode ser uma realidade, mas não devemos ignorar problemas como a durabilidade e os efeitos da lavagem – factores associados com as vestimentas quotidianas que devem ser devidamente levados em conta para que o termo “vestível” seja verdadeiro. Mais desenvolvimentos, mais aplicações A camisa inteligente desenvolvida na universidade americana Georgia Tech pela equipa liderada por Sundaresan Jayaraman é hoje comercializada pela empresa Sensatex para detecção de ferimentos de bala. Fibras ópticas plásticas tecidas na camisa sem costuras são as responsáveis pela detecção. Esses fios ópticos encontram-se ligados com uma extremidade a fotodíodos e com a outra a um laser. A camisa pode também transportar sensores para medir a temperatura, ritmo cardíaco e funções respiratórias, assim como um microfone e um detector de gases perigosos. Analogamente, a Universidade de Lapland desenvolveu, em colaboração com a Finnish Reima-Tutta Corp. e outros parceiros, uma roupa especial para os amantes dos desportos de neve. Esta roupa apresenta vários sensores integrados – incluindo um acelerómetro, bússola e um sistema de posicionamento global (GPS) – para fornecer informação sobre os movimentos, localização e saúde do seu portador. Se este for vítima de um acidente, pode informar o centro de emergências através de uma mensagem contendo as coordenadas correntes da sua posição e os dados das medições fisiológicas. A produção comercial de teclados vestíveis pela inglesa Softswitch baseia-se no efeito quanta, que possibilita a fácil integração de aparelhos electrónicos nos têxteis. Segundo a empresa, os tecidos da Softswitch podem interagir directamente com qualquer tipo de instrumentos electrónicos sem necessidade de processamento de sinal ou de algum software complexo. Deste modo, os tecidos flexíveis e macios podem ser utilizados no lugar dos interruptores rígidos convencionais, teclados, botões, etc. Estes tecidos são isoladores até que uma pressão seja aplicada, em que o nível de resistência decresce até o tecido atingir uma condutividade eléctrica similar ao metal. Por exemplo, usando-se a pressão de um dedo, a resistência pode passar de vários milhões de ohms para menos de um ohm. As aplicações incluem brinquedos, interfaces de computadores e vestuário electrónico, entre outras. Adaptação ao esforço O uso de tecidos com membrana Gore-Tex em vestuário de protecção contra as intempéries, que seja respirável e à prova de água, teve início nos anos 80. As membranas Gore-Tex funcionam porque contêm poros 700 vezes maiores do que uma molécula de água mas 20.000 vezes menores do que a mais pequena das gotas de água (na sua forma líquida, forças electrostáticas mantêm as moléculas de água unidas). Isto permite que o vapor de água (aquecida pelo corpo, a transpiração transforma-se em vapor) passe facilmente para o exterior mas não deixa a água líquida passar para o interior. O resultado é um tecido impermeável mas respirável que ajuda a manter o utilizador seco no interior, mesmo após uma actividade extenuante e pode ajudar a prevenir os arrepios pós-exercício graças á evaporação da transpiração. Por consequência, a utilização destas membranas estendeu-se a uma vasta gama de aplicações. Por exemplo, em conjunto com tecidos contendo carvão vegetal, foram também alargadas ao vestuário de protecção biológica e química para fins militares. Adaptação ao meio-ambiente Outros exemplos de têxteis inteligentes são os materiais PCM (materiais com mudança de fase) microencapsulados. Estas microcápsulas contendo PCMs, tais como parafina, reagem á temperatura ambiental: se esta aumenta, fundem-se e absorvem o calor, se a mesma diminui, solidificam e libertam o calor. Deste modo, os PCMs ajudam a regular o microclima junto à pele do utilizador, actuando como um pára-choques das flutuações térmicas do meio ambiente. Estas microcápsulas podem ser integradas em polímeros e transformadas em fibras ou podem então ser incorporadas em revestimentos ou espumas. Por exemplo, a empresa Outlast trabalha com a Acordis para produzir têxteis contendo PCMs para calçado, meias, têxteis-lar e vestuário.