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Vestuário é instrumento político – Parte 1

Os EUA e a UE parecem estar tentados a influenciar os políticos em países exportadores, ameaçando encerrar as suas indústrias de vestuário. Exemplos recentes incluem os planos da UE de cortar os benefícios GSP+ do Sri Lanka e a decisão dos EUA em revogar o estatuto do Madagáscar no AGOA (African Growth and Opportunity Act). E isto pode ser apenas o início, conforme relata David Birnbaum neste artigo de opinião. Outras indústrias são sofisticadas. Muitas têm embarcado no caminho para encontrar uma moral mais elevada. Alguns estão activamente à procura da nova metafísica. O que é a realidade? Por que estamos aqui? Os restaurantes de fast food estão a liderar na luta contra a obesidade, vendendo-nos produtos “light” com apenas 400 calorias. As empresas petrolíferas estão a poupar o meio ambiente ao perfurarem longe dos centros populacionais, no que antes era a natureza intocável. Os fabricantes de armamento estão a tentar o seu melhor para alcançar a paz no mundo, limitando as exportações de armas de destruição em massa apenas para os governos responsáveis, que podem pagar. Nós, no vestuário, somos mais simples. Para nós não existe uma ordem superior de virtude. O nosso paradigma é composto por apenas três regras: “Expedir vestuário é bom. Não expedir vestuário é mau”; “A entrega é tudo”; e o favorito de sempre – “Nunca irritar os clientes”. Mesmo com este conjunto de regras rudimentares, não é fácil fazer o que está certo. Não temos apenas um conjunto de clientes. O consumidor é nosso cliente. O retalhista é nosso cliente. O Governo do país importador é nosso cliente. A incapacidade de contentar os três vai irritar o cliente. O cliente diz-nos: «mangas de 56 cm, prensa nos 190 °C; nenhum trabalhador com idade inferior a 18 anos». Cumprimos porque o incumprimento vai irritar o cliente, que levará o seu negócio para outra parte, o que irá inevitavelmente levar a uma violação da nossa primeira directriz: “Expedir vestuário é bom. Não expedir vestuário é mau”. Todos nós gostaríamos de trabalhar em Myanmar (Birmânia). É um país de 48 milhões de pessoas que, com a excepção dos que estão no exército ou na prisão, adorariam um emprego, qualquer emprego. Este é um país onde o salário é cerca de zero por mês. Tudo considerado, já trabalhamos em diversos lugares horríveis. Se adicionarmos Myanmar à lista, pouca diferença fará. Mas nós não trabalhamos em Myanmar porque não queremos que os nossos consumidores sejam vistos em manifestações à frente das lojas dos nossos clientes de retalho. Não queremos acabar num tribunal, acusados pela UE ou pelos EUA de violarmos alguma lei obscura. Em suma, nós não trabalhamos no Myanmar, porque a nossa regra é: “Nunca irritar os clientes”. Peões da indústria Os Governos dos países importadores de vestuário – que são muito nossos clientes – estão a começar a compreender a forma como a nossa indústria opera e estão a usar as nossas directivas em sua vantagem. Finalmente aperceberam-se que, na maioria dos casos, no mundo da exportação de vestuário somos nós o maior empregador, bem como a maior fonte de divisas. Os EUA e a UE estão a começar a aperceber-se que ameaçar cortar o acesso à Disneylândia não influencia os políticos em países exportadores de vestuário. No entanto, ameaçar encerrar a indústria do vestuário é algo completamente diferente. Por exemplo, a UE acaba de recomendar o corte do GSP+ ao Sri Lanka por supostas violações dos direitos humanos na guerra contra os Tigres Tamil. O vestuário é, de longe, o maior empregador industrial no Sri Lanka, sendo responsável por 41% do total das exportações de produtos e, na medida em que 50% dessas exportações são enviadas para a UE, o fim da isenção de direitos aduaneiros traria um tsunami económico. Há algo de injusto em tudo isto. A indústria de vestuário do Sri Lanka é uma das mais avançadas do mundo. Foram recentemente construídas duas fábricas no Sri Lanka – Brandix e Hirdaramani – com zero emissões de carbono. Estas pessoas estão, de facto, a fazer alguma coisa para tornar o mundo num lugar melhor. No entanto, nós, na indústria de confecções, não funcionamos com base na moral superior “do que é justo” ou na deslocação metafísica com via à iluminação. Estamos presos no mundo real. E, nesse mundo, o cliente Sri Lanka está irritado. Posso assegurar-vos que os proprietários das três grandes empresas de vestuário – Brandix, Hirdaramani e MAS Lanka – estão agora a trabalhar com o Governo para resolver este problema rapidamente, antes que os seus clientes na UE os notifiquem que, embora lamentando, têm de procurar fornecedores de vestuário noutro lugar. Na segunda parte deste artigo, vamos continuar a analisar as pressões sobre os países exportadores de vestuário, focalizando o caso de Madagáscar.