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Vestuário é instrumento político – Parte 2

O sector de vestuário desempenha um papel de grande relevância na economia de diversos países, de tal maneira que se torna uma das principais formas de pressionar os líderes políticos. Na primeira parte deste artigo (ver Vestuário é instrumento político – Parte 1), analisamos a situação do Sri Lanka, nesta segunda parte é a vez de Madagáscar. Desastre económico para Madagáscar À semelhança dos seus congéneres europeus, o Governo norte-americano também decidiu revogar o estatuto de Madagáscar no AGOA, alegando fraude eleitoral. Neste caso, o fim do direito de acesso isento de taxas alfandegárias também acarretará um desastre económico. As exportações de vestuário representam 43% de todas as exportações de produtos de Madagáscar e 52% das peças de vestuário são enviadas para os EUA. Isto também é injusto. Não se pode esperar que as eleições em Madagáscar tenham o mesmo grau de integridade que as eleições em democracias consolidadas. Mais importante ainda: as fábricas penalizadas em Madagáscar, não são sequer madagascarenses, são propriedade de grupos da Coreia, Taiwan ou Hong Kong. No entanto, uma vez mais, a questão não é o “justo”. Irritar o cliente, deixar de entregar, não enviar peças de vestuário, essas são as questões. Se o Governo em Antananarivo não agir rapidamente para resolver este problema, haverá um verdadeiro êxodo de empresas. Este é o mundo do vestuário – o mundo real – sem grande moralidade e sem uma nova metafísica. Nem todos serão afectados. Países como Myanmar e a República Popular Democrática da Coreia não vão ser influenciados. No entanto, os governos que estão preocupados com o bem-estar do seu povo devem estar atentos. Entrámos numa nova era, onde as antigas regras e a antiga dissimulação deixarão de funcionar. Nenhum país exportador de vestuário será imune, independentemente da dimensão. Impacto ambiental A Administração Obama está a avançar no sentido de uma nova política ambiental, na qual os Estados Unidos terão um papel de liderança nos esforços para reduzir o aquecimento global. Para alcançar este objectivo, a Administração deve convencer o Congresso norte-americano de que nenhuma nova regulamentação interna irá resultar em perdas de emprego – ou seja, as empresas e os clientes não vão procurar fornecedores no estrangeiro, onde beneficiam de menores custos, porque a indústria nesses países pode poluir livremente. Isto só pode ser alcançado de duas maneiras. Ou os países exportadores entram num acordo vinculativo para reduzir os gases com efeitos de estufa, ou os países importadores impõem direitos compensatórios para equilibrar os benefícios de custo decorrentes de padrões mais baixos de poluição. É claro que os principais países exportadores no mundo em desenvolvimento, liderados pela China, sentem-se seguros com o actual status quo. Como vimos na Conferência sobre Mudanças Climatéricas em Copenhaga, um acordo significativo voluntário parece altamente improvável, enquanto os direitos de compensação são, provavelmente, uma violação às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e, portanto, ilegais. Do ponto de vista da China e dos seus aliados, os EUA não têm alternativa senão continuarem a importar produtos “made in China”, independentemente dos seus efeitos sobre o meio ambiente. Dois anos, três anos no máximo. Esse é o período de tempo para que os EUA imponham taxas compensatórias sobre as exportações “made in China”. Esta é uma previsão fácil. Há duas leis. A única questão é: qual a lei mais importante? Por um lado, temos o tratado da OMC, que foi ratificado por dois terços do Senado norte-americano e é agora a lei na Terra, tendo precedência sobre todas as outras leis dos EUA com excepção da própria Constituição. Por outro lado, temos a terceira directiva do vestuário: “Nunca irritar os clientes”. Tudo considerado, não existe propriamente conflito entre as duas.