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Vestuário que vale medalhas

Terminada a corrida ao ouro dos Jogos Olímpicos Rio 2016, os gigantes do desporto recordam que quando os segundos contam, as roupas têm uma palavra a dizer.

Apagou-se domingo, 21 de agosto, a tocha das olimpíadas modernas sendo que, se na antiguidade os atletas competiam nus, atualmente o equipamento usado pode ser crucial para a subida ao pódio.

No caso de Michael Phelps, por exemplo, a Under Armour (ver Phelps mergulha na Under Armour) ajudou o atleta a arrecadar a 28ª medalha (das quais 23 de ouro), com o ouro conseguido nos 100 metros mariposa. A ele, juntam-se as prestações marcantes da ginasta Simone Biles (equipada também pela Under Armour) e do homem mais rápido do mundo, Usain Bolt (com equipamento da Puma). Portugal trouxe o bronze no Judo, ao pescoço de Telma Monteiro.

Marcas olímpicas

Para os Jogos Olímpicos Rio 2016, a Nike recorreu à tecnologia de impressão 3D para desenvolver pequenas saliências de silicone capazes de redirecionar o fluxo de ar que rodeia o atleta em corrida, os scanners corporais ajudaram os equipamentos da Adidas a adaptarem-se aos corpos dos nadadores e a especialista em ciclismo Assos socorreu-se dos túneis de vento para desenvolver equipamentos customizados e adaptados à fisionomia da equipa de ciclismo americana, enumera a Associated Press.

Aproveitando os avanços tecnológicos e as novas técnicas de design, os fabricantes de artigos desportivos têm vindo a explorar as novas valências do vestuário da forma mais criativa possível, respeitando as regras em vigor para evitar o equivalente do vestuário ao doping.

«Certificamo-nos de que estamos a respeitar essas regras, mas vamos chegar até ao limite se pudermos», afirma Adam Clement, diretor criativo para desportos coletivos na Under Armour. «O nosso objetivo é inovar de uma forma que, eventualmente, acabe por fazer com que as regras do Comité Olímpico mudem. Ajustamo-nos, mas vamos orgulhar-nos se conseguirmos esse feito».

A relevância

Com particular relevância para as modalidades de velocidade, como o ciclismo, a natação e a corrida, o vestuário tem de ter um ajuste perfeito a fim de minimizar a resistência do ar. «Quatro segundos em quatro quilómetros é [a diferença entre] o primeiro e o oitavo lugar», explica Jim Miller, vice-presidente de atletismo que acompanhou a equipa americana de ciclismo.

Já uma escolha errada de materiais ou designs pode significar desconforto e peso desnecessário. Ainda assim, mesmo quando a velocidade não é um fator, o vestuário consegue reduzir, por exemplo, o suor e o calor – propriedades muito valorizadas face a um clima quente como o do Rio de Janeiro.

A utilidade

O vestuário, por si só, não compensa anos de treino, um bom treinador ou um corpo em excelente forma, mas um equipamento inadequado pode interferir. «Não vamos conseguir fazer magia em dia de corrida com umas sapatilhas mágicas», afirma a maratonista americana Desiree Linden, que ficou em 7º lugar na maratona feminina. «Mas se treinar muito e fizer uma bolha ou não pousar o meu pé corretamente, a corrida pode estar perdida», acrescenta.

Neste encadeamento, a introdução de um equipamento de alta tecnologia da Under Armour para a patinagem, por exemplo, foi motivada pela péssima performance da equipa americana há dois anos em Sochi, na Rússia.

Para evitar falhas, a marca desportiva adiantou que estava já a testar os equipamentos para 2018 e que iria tentar apresentá-los mais cedo aos atletas, apostando ainda mais na personalização, considerando o tipo de corpo.

Os equipamentos

Como de resto acontece com os eventos desportivos de larga escala, os atletas olímpicos foram vestidos e calçados pelas marcas que patrocinam as equipas.

A especialista em artigos de corrida Brooks, por exemplo, firmou parceria com Desiree Linden para desenvolver as sapatilhas Hyperion. A fabricante eliminou as costuras para reduzir o risco de bolhas e os anéis de borracha da sola aumentam a tração em terrenos escorregadios, servindo ainda como barreiras para conter e impulsionar a energia, de acordo com a empresa. «Parece que temos molas nos pés», explica a atleta americana. «Não há desperdício de energia», acrescenta.

A Brooks começou a vender as sapatilhas em junho, embora Linden e outros atletas olímpicos tenham direito a extras nos seus modelos, como perfurações a laser para a ventilação do calor. Já na Under Armour, a equipa de rugby canadiana e as equipas suíça e holandesa de voleibol de praia tiveram direito a uma tecnologia espacial da NASA que reduz a temperatura corporal. Por sua vez, a tecnologia 3D da Nike que redireciona o fluxo de ar foi incorporada nos equipamentos de duas dezenas de equipas, incluindo EUA, Brasil, China e Alemanha.

Os limites

Depois de, alegadamente, os fatos da Speedo terem ajudado Michael Phelps e outros atletas a arrecadarem medalhas e recordes nos Jogos Olímpicos de 2008, a natação é das modalidades com disposições mais rígidas. Os equipamentos de corpo inteiro – que já não são permitidos – foram desenvolvidos em conjunto com a NASA para aumentar a flutuabilidade e reduzir o arrasto. Contudo, ainda que as regras tenham sido revistas, os fabricantes de swimwear podem continuar a investir na inovação, mas têm de ser muito criativos.

Michelle Miller, responsável pelos novos conceitos de vestuário da Nike, conta que o caminho para chegar aos equipamentos «foi uma das partes favoritas do processo de design». Os calções Adizero XVI, desenvolvidos pela Adidas para o britânico Chris Walker-Hebborn (que levou para casa a medalha de prata nos 4x100m medley masculino) e outros nadadores, tinham bandas elásticas destinadas a manter os corpos em posições aerodinâmicas – o que minimiza o arrasto e impulsiona os nadadores na piscina.

O laboratório

Omar Visentin, COO e ex-diretor de investtigação na Assos, acredita que, hoje, os fabricantes de vestuário de performance conseguem aceder a testes mais sofisticados e avaliar diferenças de tempo de forma mais precisa. Algumas empresas exploram também modelos computorizados para projetar o equipamento perfeito com menos protótipos, revela Ajoy Sarkar, professor no Fashion Institute of Technology.

Para chegar às sapatilhas Vazee Sigma que o promissor sprinter norte-americano Trayvon Bromell usou, por exemplo, a New Balance recorreu à impressão 3D, testando várias configurações para melhorar a tração e transferência de energia. A Nike também recorreu à tecnologia, bem como a túneis de vento, para melhorar as saliências corta-vento.

A Adidas desenvolveu as suas sapatilhas para média distância Adizero MD de forma a que estas se adaptassem às curvas da pista. A marca testou várias combinações de rigidez e leveza para manter os corredores, como o queniano David Rudisha (ouro nos 800 metros), estabilizados, evitando perdas de velocidade nas curvas.

Entretanto, Deborah Yeomans, responsável pelos projetos futuros da Adidas, adiantou à Associated Press que os engenheiros da marca já estão a trabalhar em projetos que serão apresentados daqui a 10 anos.

A partir de 7 de setembro, o Rio de Janeiro recebe os Jogos Paralímpicos, com a presença de 4.350 atletas de 178 países, competindo em 22 modalidades. Portugal será representado por 29 atletas paralímpicos.