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Vestuário sem salário digno

Um novo estudo sugere que as gigantes do vestuário não cumprem as promessas de pagamento de salários dignos na sua cadeira de aprovisionamento. Os salários baixos continuam a ser o normal na indústria mundial do vestuário, apesar dos compromissos das marcas.

Um grupo de investigadores da Universidade de Sheffield, do Reino Unido, defende que a maioria das empresas de vestuário não tem métodos para calcular – quanto mais para garantir – um salário digno aos trabalhadores das suas cadeias de aprovisionamento mundiais, apesar de se terem comprometido nesse sentido.

Um salário digno deve cobrir o custo de uma vida familiar – incluindo a renda, a alimentação e os cuidados de saúde –, além de permitir que haja poupanças, segundo a Clean Clothes Campaign.

Os investigadores analisaram os compromissos e as ações de 20 das maiores empresas de vestuário do mundo, incluindo Adidas, C&A, Decathlon, Fruit of the Loom, Gap, G-Star Raw, H&M, Inditex, Levi Strauss, Nike e Primark. Destas, 17 são membros de iniciativas que prometem um compromisso com o pagamento de salários dignos. Apenas três empresas – a H&M, a C&A e a G-Star Raw – têm um código de conduta para os fornecedores que exige o pagamento de salários que vão de encontro à definição da Clean Clothes Campaign,

O estudo “Corporate Commitments to Living Wages in the Garment Industry” aponta que a falta de transparência acerca dos salários torna extremamente difícil avaliar o progresso das empresas. A investigação revela igualmente que, em vez de alterarem as suas práticas negociais para tornar possível aos fornecedores pagarem salários dignos, a maiorias das marcas de vestuário está a desresponsabilizar-se dos seus compromissos, passando-os para entidades externas.

Além do mais, algumas das empresas estão comprometidas com múltiplas iniciativas, cada uma com diferentes definições e abordagens em relação aos salários, o que significa que existe uma grande falta de clareza. A análise mostra ainda que os códigos de conduta corporativos normalmente não condizem com os requisitos das iniciativas externas com as quais estão envolvidas. «Há poucas provas de que os compromissos das empresas para com os salários dignos se estejam a traduzir em mudanças significativas», reconhece a docente da Universidade de Sheffield e coordenadora da investigação, Genevieve LeBaron. «Por consequência, os consumidores estão a comprar produtos que acreditam que são feitos por trabalhadores a ganhar um salário digno quando, na realidade, os salários baixos continuam a ser o normal na indústria mundial do vestuário. As empresas deveriam avaliar as suas práticas de sourcing e garantir que estão a pagar o suficiente aos fornecedores para que estes consigam pagar salários dignos», alerta.

«Não é fácil»

Questionados sobre as revelações, empresas como a Amazon.com e a Decathlon afirmaram à Reuters que os seus fornecedores respeitavam a legislação local no que toca a pagamentos e benefícios – sem referências aos salários dignos. A Gap Inc, por sua vez, frisa que está a trabalhar com parceiros e outras marcas para envolver os trabalhadores e encorajar mecanismos de definição de salários. A gigante alemã Puma considera que os salários devem ser negociados localmente e envolver trabalhadores, administrações e governos, não sendo definidos por empresas mundiais ou organizações internacionais. «Não é fácil definir um salário “justo”», afirma Robert-Jan Bartunek, gestor sénior de comunicação da Puma.

A H&M anunciou, em 2013, um plano pioneiro para garantir um salário digno para cerca de 850 mil trabalhadores até 2018. Em dezembro passado, a retalhista admitiu que nenhum trabalhador recebia um salário digno porque as uniões sindicais e os fornecedores da sua cadeia de aprovisionamento não chegaram a acordo em termos de valores e que a H&M não queria criar uma «bolha isolada de justiça».

Os investigadores admitem que existe «uma confusão e inconsistência generalizadas» entre as empresas, acerca do salário digno, com muitas a desresponsabilizarem-se dos compromissos, referindo que essas medidas estão fora do seu alcance. «Demasiadas empresas param ao garantir que os salários mínimos são pagos, o que está evidentemente longe de uma luta por um salário digno», assegura Peter McAllister, diretor da Ethical Trading Initiative, que une uniões sindicais, empresas e instituições de solidariedade.