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Vestuário usado sem mitos

Um grupo de associações envolvidas no comércio de roupa em segunda-mão em todo o mundo uniu forças para uma ação que tem como objetivo «dissipar mitos sobre o sector» de forma a incentivar o consumo deste segmento de vestuário.

[©Pexels]

A Secondary Materials and Recycled Textiles Association (SMART), a European Recycling Industries’ Confederation (EuRIC) – Textiles, Textile Recycling Association (TRA) e o Bureau of International Recycling (BIR) – Textile Division divulgaram um comunicado conjunto que revela que a indústria de vestuário usado está a crescer, sustentada pelos «enormes benefícios ambientais, sociais e económicos», noticia o Just Style.

De acordo com o grupo, o sector está a trabalhar em direção a uma economia circular, oferecendo soluções sustentáveis para têxteis usados que vão «beneficiar toda agente e ajudar a reduzir os principais impactos ambientais causados pela indústria de moda global».

«Há um equívoco comum de que o vestuário em segunda-mão exportado para países em desenvolvimento acaba logo parcialmente descartado. O que é um facto é que as roupas que não são vendidas diretamente no mercado simplesmente são repassadas à cadeia de aprovisionamento e acabam a ser vendidas noutros mercados menores da região», afirma o grupo. «Se seguir um raciocínio simples, é fácil entender que nenhuma empresa lucrativa vai gastar dinheiro na embalagem, envio e distribuição de um produto apenas para que ele acabe num aterro sanitário», explica.

«A indústria de vestuário usado está a crescer como resposta ao aumento da procura por produtos acessíveis e consumidores ambientalmente conscientes. Em muitos casos, o vestuário usado também é de melhor qualidade e dura mais do que os produtos novos mais baratos. Este esforço a jusante é uma situação vantajosa para as pessoas que procuram um local para reutilizar as suas roupas e para os consumidores que procuram um bom valor», destaca.

Jackie King, diretor-executivo da SMART, acredita que a reutilização e a reciclagem de têxteis são a solução e não o problema. «O vestuário em segunda-mão exportado para países é classificado pelas necessidades ou preferências do cliente. Os fornecedores não enviam resíduos; não é um custo efetivo. Os clientes exigem roupas de qualidade para revenda, não desperdício; a semântica de “desperdício” é realmente o que eles não podem vender. A realidade é que se as roupas não vendem, muitas vezes são enviadas para outros mercados mundiais para revenda ou reciclagem – não deitadas fora», indica o grupo a cargo da ação que pretende acabar com os mitos sobre esta prática.

Martin Böschen, presidente da divisão têxtil do BIR partilha da mesma opinião. «Devido aos altos custos de importação e transporte, não faz sentido para os importadores importar têxteis usados ​​que não sejam adequados para o mercado local. Descartar ou reciclar esses têxteis na Europa ou nos EUA seria mais barato do que enviá-los para África. Por isso, a hipótese de que uma grande parte dos têxteis importados vai diretamente para aterro é altamente questionável», considera.

Mais benefícios

A declaração foi feita depois do Institute of Economic Affairs do Quénia ter divulgado um estudo sobre a indústria de vestuário usado e as respetivas contribuições para a economia do país africano em abril deste ano.

[©BIR]
Segundo o grupo, a principal conclusão do relatório é que a indústria de vestuário usado é fundamental para a economia do Quénia, uma vez que emprega diretamente cerca de dois milhões de pessoas, criando outros empregos apoiados em sectores auxiliares como a indústria de transportes. Além disso, ajuda também a promover a igualdade de género, tendo em conta que muitas empresas são operadas por mulheres.

O relatório menciona ainda que por cada 100 peças de roupa compradas, são substituídas cerca de 60 a 85 roupas novas, o que se traduz numa redução significativa das emissões de gases efeito estufa e no uso de toxinas que teriam sido causadas pela produção de novos têxteis.

«A indústria de vestuário usado vai continuar a sustentar a viabilidade dos modelos de negócios circulares nas próximas décadas e fornecer roupas usadas para mercados e pessoas onde quer que estejam no mundo será fundamental para alcançar o máximo de benefícios ambientais, bem como benefícios sociais e económicos, garante Alan Wheeler, CEO da TRA.

«Como um grupo coletivo de associações têxteis e de vestuário usados de vários países, queremos esclarecer as coisas e encorajar fortemente o mundo a consumir têxteis e roupas em segunda-mão. A indústria de vestuário usado tem um impacto social, económico e ambiental positivo e de longo alcance. Até mesmo a indústria de moda está lentamente a juntar-se ao movimento da tendência do reciclado. Outros países também devem seguir as tendências agora definidas nos países africanos, onde a “reutilização” é mais a norma. Devemos avançar para o mesmo sonho: para uma economia circular que é essencial numa perspetiva global», conclui o grupo.