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Victoria’s Secret apoia indianas

A aldeã indiana Jaya coloca o soutien de designer copa C em rosa brilhante sob a agulha da sua máquina de costura e cose cuidadosamente as costuras. O soutien push-up almofadado “Very Sexy” que Jaya, de 22 anos, está a coser é para a retalhista de lingerie Victoria’s Secret – desenhada para dar um «impulso» às compradoras em centenas de lojas de moda nos EUA. Mas a um mundo de distância, nesta região do sul da Índia que se dedica tradicionalmente ao cultivo do arroz, estes soutiens luxuosos estão – de forma diferente – a melhorar a vida das pobres mulheres rurais. «Antes não conhecia nada a não ser a aldeia», revela Jaya, sentada atrás da sua máquina de costura na agitada unidade de produção da Intimate Fashions, no estado de Tamil Nadu, na Índia. «Os meus pais queriam casar-me o mais rapidamente possível. Nunca me viram como um bem, apenas como um fardo. Não pensavam que uma mulher pudesse ganhar dinheiro, mas olhem para mim», afirma, com o cheiro do jasmim a emanar de um punhado de flores brancas colocadas no seu cabelo entrançado. Para as mulheres rurais da Índia conservadora – com sorte se acabarem a escola, casadas antes dos 18 anos e confinadas às suas aldeias –, um projeto que lhes dá emprego no setor de produção não é apenas um fim para a pobreza, mas dá-lhes poder e respeito nesta sociedade profundamente patriarcal. Localizada a 30 km a sul de Chennai, a Intimate Fashions – que também produz soutien para a marca Pink da Victoria’s Secret e para a marca La Senza – é uma de milhares de empresas que se instalaram no distrito de Kanchipuram em Tamil Nadu nos últimos anos. Políticas “amigas” do investimento, a proximidade a um dos maiores portos da Índia e a um aeroporto internacional, acesso fácil a uma força de trabalho grande e semiletrada ajudou a tornar a área numa das mais industrializadas no país. Tradicionalmente conhecido por produzir os saris de seda da melhor qualidade da Índia, Kanchipuram é agora um centro de topo para produtores de automóveis como a Hyundai, Ford e Volvo, assim como de empresas de vestuário, tecnologia e eletrónica. «Milhares de empresas acumularam-se aqui e tem havido uma crescente concorrência para conseguir bons funcionários», afirma Prasad Narayan Rege, diretor-geral da Intimate Fashions, que emprega Jaya entre os seus 2.500 trabalhadores, a maioria dos quais mulheres. «Por isso quando o Banco Mundial e o governo de Tamil Nadu vieram ter connosco com a ideia de empregar mulheres de algumas das comunidades mais pobres e dar-lhes formação, vimos uma boa oportunidade. Se não fosse por este projeto, estaríamos em grandes dificuldades», acrescenta. Sob o projeto Pudhu Vaazhvu (que significa “Nova Vida” em Tamil), financiado por um empréstimo de 350 milhões de dólares (278,73 milhões de euros) do Banco Mundial, os comités locais das aldeias identificam jovens sem trabalho – que constituem uma grande percentagem dos 20% de desempregados de Tamil Nadu. As empresas são então postas em contacto com estas aldeias e organizam feiras de emprego pelo menos uma vez por mês – fazendo apresentações, respondendo a questões sobre qualificações, formação e salários –, focando-se em particular no recrutamento de jovens mulheres. Mas isso não é tão fácil nestas comunidades dominadas por homens, onde as famílias sobre-protetoras raramente permitem que as suas filhas solteiras saiam sozinhas e esperam que se mantenham com os seus tradicionais papéis como donas de casa. Os responsáveis afirmam que as empresas têm de adotar abordagens «culturalmente sensíveis» como trazer os pais para verem as unidades de produção e o ambiente em que as suas filhas irão viver e trabalhar, já que algumas raparigas têm de ficar em hotéis criados pelas empresas. «Inicialmente, era estranho ver mulheres rurais a trabalhar. A nossa sociedade manteve as mulheres em casa no seu papel tradicional de donas de casa», explica Shajeevana R.V., do Departamento de Desenvolvimento Rural de Tamil Nadu. «Mas agora, estas jovens mulheres estão a ser o ganha-pão. E não só, estamos a ver mudanças sociais positivas a ter lugar devido a estes empregos. As raparigas, que são casadas mal saem da escola, estão agora a adiar o casamento em três a quatro anos», acrescenta. Desde esta parceria público-privado, que começou em 2005, 143.709 jovens em Kanchipuram e noutros 25 distritos, conseguiram empregos com 421 empresas, como a Intel, Nike, Samsung e Nokia, indicam os responsáveis governamentais. Na enorme unidade da Intimate Fashion, centenas de mulheres em aventais em rosa claro e lenços na cabeça, sentadas em longas linhas dobradas sobre as suas máquinas, cosem fitas em cetim vermelho e alças em renda lilás, com música pop Tamil a sair das colunas. «Foi difícil de início. Os meus pais não queriam que eu viesse e eu estava assustada», afirma Vithya, de 18 anos, que começou a trabalhar na fábrica há um mês. «Mas estou a habituar-me e a enviar dinheiro para casa para pagar a construção da casa dos meus pais», acrescenta. Aninhada entre coqueiros e plantações de arroz, a aldeia de Mamandur, a 30 minutos de carro da Intimate Fashions, fornece muitas jovens mulheres para a fábrica. A maior parte dos aldeãos não têm terras e estão dependentes de trabalho manual, trabalhando em quintas por um salário diário de 100 rupias (menos de 1,50 euros). Há pouca segurança financeira e se não houver trabalho um dia, mesmo o jantar básico fica em dúvida. As raparigas tradicionalmente passam os seus dias a fazer as tarefas domésticas – ir buscar água ao poço, fazer as refeições, limpar e tomar conta dos irmãos mais novos. Mas em muitas famílias isso mudou, afirmam os aldeãos, devido ao projeto Pudhu Vaazhvu. «Antes tinha dificuldades para mandar os meus filhos para a escola, mesmo a comida era um problema», revela Latta Gubendran, mãe de três, cuja filha de 19 anos, Divya, trabalha na Intimate Fashions e ganha um salário mensal de 7 mil rupias (100 euros). «Divya ganha mais do que eu pensei que fosse possível. As minhas duas filhas mais novas podem ir à escola e comprámos um frigorífico, uma televisão e até cimentámos o chão de nossa casa. Ela é como o filho que nunca tive. Ela traz-me, a mim e à minha família, respeito», conclui.