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Vietname prospera sem TPP

O fim anunciado por Donald Trump da Parceria Transpacífico abalou a confiança da indústria têxtil e vestuário do Vietname, mas o país parece estar a dar a volta por cima, com um acordo de comércio livre com a União Europeia e o investimento direto estrangeiro a dar uma visão otimista para o futuro.

A indústria têxtil e vestuário do Vietname tem avaliado o impacto de perder um muito antecipado impulso das exportações com a Parceria Transpacífico (TPP), agora que o presidente-eleito dos EUA, Donald Trump, prometeu assinar uma ordem executiva para sair do acordo que reúne 12 nações da região do Pacífico.

Com o acordo, as exportações de vestuário do Vietname iriam ganhar entrada sem taxas nos EUA, em comparação com a média atual de 11%, que em algumas categorias chega a 32%. Isto levou o Banco Mundial a lançar uma previsão, que agora significa pouco, de que as exportações de têxteis e vestuário do Vietname para os EUA e para o Japão sob o TPP teriam um grande papel no aumento do PIB do Vietname em 10% até 2030.

O percurso até à conclusão do TPP em outubro de 2015 foi acompanhado por um forte fluxo de investimento estrangeiro no sector têxtil do Vietname para satisfazer as regras de origem “a partir do fio” do TPP. Em 2015, a indústria têxtil e vestuário do Vietname recebeu um valor recorde de 2 mil milhões de dólares (cerca de 1,9 mil milhões de euros) em investimento direto estrangeiro, segundo a Associação Têxtil e Vestuário do Vietname (Vitas).

Embora pareça que os investidores, a maior parte dos quais do Japão, China, Coreia do Sul e Taiwan, colocaram as suas apostas “no cavalo errado”, o próprio sector de vestuário do Vietname não considera estar entre os perdedores na história do TPP. «Os salários vão aumentar a uma taxa mais lenta agora que o TPP está morto, o que é bom para nós, já que a vaga antes do TPP os tinha pressionado muito às nossas custas», afirma, ao just-style.com, Chris Walker, diretor de marketing na Thai Son SP Garment Factory, em Ho Chi Minh City. «Qualquer pessoa que compre no Vietname ainda vai ter de pesar o fator das taxas, por isso vai ser o negócio habitual», acrescenta.

Em novembro, o presidente-eleito Donald Trump afirmou que vai tomar medidas para sair do TPP no seu primeiro dia na Casa Branca. Mas o Primeiro-Ministro do Vietname, Nguyen Xuan Phuc, enfatizou que, com ou sem o TPP, o país continua empenhado em abrir mais a sua economia ao mundo. O Vietname já assinou 12 acordos de comércio livre e os comentários de Phuc reforçam as declarações do Ministro do Comércio do Vietname, Vu Huy Hoang, que afirmou que os sectores dos têxteis, marisco e vestuário continuarão a ser competitivos sem o TPP.

Os especialistas que seguem o sector têxtil e vestuário do Vietname concordam. De acordo com Tomoo Kikuchi, investigador sénior no Centro sobre a Ásia e Globalização da Universidade Nacional de Singapura, a quantidade considerável de investimento de multinacionais estrangeiras na cadeia de aprovisionamento a montante impulsionada pela regra “a partir do fio” do TPP é também um esforço para atualizar a cadeia de valor no Vietname.

Kikuchi espera que esta tendência continue. «As regras de origem deram à indústria um incentivo e, como tal, dinamismo para investir em têxteis a montante, que é algo natural a fazer quando os custos do trabalho aumentam. Claro que não haver TPP é desapontante, mas não tenho a certeza que isso vá abrandar a tendência», refere.

Achim Haug, representante da Germany Trade & Invest, uma agência governamental que apoia o investimento direto estrangeiro no Vietname, sublinha que as vantagens estruturais do Vietname para o sector produtivo orientado para a exportação continuam elevadas, «por isso os investidores vão continuar a vir com ou sem o TPP».

Entre estas vantagens estão o facto dos níveis salariais no Vietname serem um terço mais baixos do que na vizinha China, uma relativamente boa infraestrutura, estabilidade política e uma força de trabalho jovem e relativamente jovem.

«Oportunidades particulares também estão a emergir do acordo de comércio livre entre o Vietname e a União Europeia, que foi assinado e está agora à espera de ratificação na UE», refere Haug. «Esperamos uma rápida clareza sobre este assunto, para que o acordo possa entrar em vigor em 2018 tal como planeado», acrescenta.

Embora os EUA tenham sido o principal mercado dos produtos têxteis e de vestuário do Vietname, com 10 mil milhões de dólares em 2015, os envios para a Europa no mesmo período foram significativamente mais baixos, em cerca de 3 mil milhões de dólares.

Mas ao contrário do TPP, que tem a regra “a partir do fio”, o acordo de comércio livre entre o Vietname e a UE tem uma regra de origem “a partir do tecido”. Isto significa que os produtores de vestuário do Vietname poderão perpetuar a sua confiança em fios baratos da China, salvaguardando assim as margens de lucro. A UE concordou em remover todas as taxas de importação para os têxteis e vestuário do Vietname dentro de sete anos.

Julia Hughes, presidente da Associação da Indústria da Moda dos EUA, admite que muitos na indústria de moda americana estão dececionados porque esperavam a aprovação do TPP pelo Congresso Americano durante o período antes de Trump assumir o cargo, a 20 de janeiro. Mas ainda antes da afirmação de Trump sobre o TPP, os líderes do Congresso de ambos os partidos tinham já clarificado que não iriam avançar com o acordo (ver EUA põem TPP em pausa). «Estamos desiludidos mas não devastados porque os nossos membros sabiam que taxas zero não iriam entrar em vigor já no próximo ano, significando que ninguém tinha feito preços ou colocado encomendas com base no TPP», explica Julia Hughes. «Ironicamente, mesmo com o Vietname sem TPP, teve todo o investimento estrangeiro e o acordo com a UE. Em contrapartida, a morte do TPP é uma clara perda para as marcas de moda americanas, não menos importante na sua concorrência pelo espaço mundial com os seus concorrentes da UE», aponta.

Ainda assim, Hughes acredita que há algumas razões para ser cautelosamente otimista. Segundo afirma, a Administração Trump vai, com o tempo, ver estas realidades económicas, com os interesses da família Trump no vestuário em geral, e com o facto da filha Ivanka Trump, em particular, ter a sua própria linha de vestuário e calçado a emergirem provavelmente como fatores que vão ajudar esta visão. E com atualmente 97% de todo o vestuário vendido nos EUA a ser importado, a presidente da Associação da Indústria da Moda dos EUA não vê forma da maior parte da produção voltar a ser efetuada nos EU, sobretudo tendo em conta que uma das promessas políticas é reduzir o número de vistos a emigrantes. «Trump falou de fazer acordos bilaterais de comércio livre, por isso porque não um com o Vietname?», lança Julia Hughes.