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Vietname ultrapassa Bangladesh

A pandemia veio trazer muitas mudanças e a indústria de vestuário não foi exceção. Agora, o Vietname é o segundo maior exportador de vestuário do mundo, tendo ultrapassado o Bangladesh.

[©BGMEA]

O Vietname substituiu o Bangladesh como o segundo maior exportador de vestuário a nível mundial e a Turquia ultrapassou a Índia como o quarto maior, de acordo com os dados da World Trade Statistical Review 2021, uma publicação da Organização Mundial do Comércio (OMC) divulgada pelo Sourcing Journal.

Em 2020, as exportações de vestuário do Vietname alcançaram os 29 mil milhões de dólares (cerca de 24,46 mil milhões de euros), o que corresponde a 6,4% do mercado global, comparativamente com os 6,2% registados em 2019. Por sua vez, o Bangladesh atingiu os 28 mil milhões de dólares no ano passado, com uma quota de 6,3% no mercado global em relação aos 6,8% de 2019.

A China continua, no entanto, a deter o domínio global com exportações de 142 mil milhões de euros em 2020, o que representa uma quota de 31,6% no mercado global, um aumento face aos 30,8% de 2019.

Apesar de alguns aumentos, com os mercados da União Europeia e dos EUA confinados durante grande parte do ano passado, o cenário geral das exportações baixou significativamente. Deste modo, os 10 principais exportadores – China, União Europeia, Vietname, Bangladesh, Turquia, Índia, Malásia, Reino Unido, Hong Kong e Indonésia – arrecadaram um total de 378 mil milhões de dólares em envios no ano transato, um valor inferior comparativamente aos 411 mil milhões evidenciados em 2019.

Fatores condicionantes

Depois de verem o Vietname conquistar o segundo lugar como maior exportador de vestuário a nível mundial, os fabricantes do Bangladesh justificaram o declínio com a pandemia, segundo eles, melhor administrada no país vietnamita. Porém, nem todos atribuem as culpas à crise sanitária.

Khondaker Golam Moazzem, diretor de pesquisa no Centre for Policy Dialogue (CPD), um think tank em Daca, revela que a queda do Bangladesh não esteve somente relacionada com o covid-19. «O Bangladesh e o Vietname têm visto um crescimento nas exportações de vestuário na última década com uma margem próxima, mas há uma diferença nisso. Ainda que o Bangladesh tenha alguns pontos fracos e o Vietname tenha vantagens particulares, para começar, muitos negócios da China mudaram-se para o Vietname porque é um mercado de produtos diversificado. Embora antes se pensasse que a relação China-EUA era tensa por causa do presidente Trump, o Vietname vai tornar-se uma fonte crescente», aponta Moazzem, destacando que o Bangladesh atraiu principalmente investidores internos e poucos investidores estrangeiros.

[©BGMEA]
«O Vietname também tem uma forte cadeia de valor regional, tanto em termos de proximidade para fios e outros materiais como em termos de acordos comerciais, incluindo um acordo de livre comércio com a Europa. Apesar do Bangladesh ter um Acordo Multifibras (MFA) com vários países, essa integridade baseada em incentivos também causa danos – não investimos o suficiente em tecnologia, em investimento estrangeiro direto e isso não trouxe nenhum benefício adicional», acrescenta.

As diferenças, contudo, não ficam por aqui, já que o diretor de pesquisa do CPD compara as duas potências em termos ambientais, com o Bangladesh a ter uma taxa de poluição ainda muito elevada. «As competências de marketing online no Vietname são muito altas e, embora grande parte da produção de Bangladesh seja de algodão, o Vietname tem capacidade para fabricar algodão e outros têxteis», refere Khondaker Golam Moazzem.

A produtividade dos trabalhadores é outro dos fatores que podem justificar a perda do segundo lugar, já que a produtividade dos trabalhadores do Vietname em 2018 foi de 72% e no Bangladesh de 58%.

Competição prolongada

Com olhos postos no futuro, o diretor de pesquisa do CPD considera que é necessário investir. «Esta competição pode durar mais um ano, mas se o Bangladesh não fizer investimentos suficientes em investimento estrangeiro direto, produtividade, diversificação e vendas no mercado online, o país enfrentará desafios», acredita Khondaker Golam Moazzem.

Abdullah Hil Rakib, diretor da Associação de Produtores e Exportadores de Vestuário de Bangladesh (BGMEA), afirma que perante a situação é necessário mostrar que o país não está a perder posição e refletir no que será necessário fazer para a recuperar no futuro próximo. «Estamos a analisar os diferentes parâmetros, incluindo uma comparação de salários versus produtividade. Temos uma estrutura salarial melhor, mas a produção não está em linha com o que deveria ser. É um momento de ver os desafios e transformá-los para enfrentá-los melhor», indica.

[©BGMEA]
No que diz respeito à Índia, as exportações de vestuário chegaram aos 13 mil milhões de dólares em 2020, um valor superado pelos 15 mil milhões de dólares atingidos pela Turquia. A Índia ficou com uma quota de 2,9% nas exportações globais face aos 3,4% conquistados pela Turquia em 2020.

Foram vários os fatores que fizeram com a Turquia ultrapassasse a Índia no ranking das exportações, nomeadamente o facto dos confinamentos causados pela pandemia terem sido prolongados durante mais de dois meses e os trabalhadores migrantes terem demorado a regressar ao país de origem, o que levou os compradores a transferir os pedidos para outros locais.

Mesmo que os compradores optem novamente pela Índia, os analistas da indústria acreditam que outros problemas políticos e sistémicos vão afetar este sector. Entre eles o imposto sobre bens e serviços, imposto sobre o valor acrescentado ou ainda o facto dos diferentes estados da Índia terem iniciativas próprias que precisam de ser compreendidas e negociadas.