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Wearables antisstress

Um número crescente de dispositivos wearable procura avaliar o nosso estado de espírito, determinando quando precisamos relaxar. No entanto, como o mais recente produto no mercado revela, essa é uma tarefa mais difícil do que inicialmente antecipado.

A premissa subjacente ao novo wearable WellBe é algo depressiva: muitos de nós estamos continuamente sob stress ou de tal forma desconectados das nossas emoções, que não conseguimos determinar quais as partes do nosso dia que nos deixam mais ansiosos. Dessa forma, o WellBe foi concebido para tornar esses sentimentos mais óbvios.

Em teoria, se o utilizador colocar a nova pulseira e a sincronizar com a sua agenda, o dispositivo irá dizer-lhe quem e que situações o colocam sob maior stress. Em seguida, orienta o utilizador sobre exercícios de meditação que o ajudam a lidar melhor com essas situações. «Acreditamos que quando identificamos os gatilhos e temos a solução, conseguimos realmente reduzir o stress», afirma Doron Libshtein, presidente e cofundadora do WellBe.

No entanto, o problema principal prende-se com a incerteza face à verdadeira capacidade do wearable medir o stress com precisão. O WellBe foi concebido para monitorizar as variações da frequência cardíaca, que se pode relacionar com o quão stressados estamos, e utiliza um algoritmo customizado que analisa as mudanças do ritmo cardíaco. Porém, a variabilidade da frequência cardíaca é notoriamente difícil de aferir – especialmente através de um dispositivo tão simples como uma pulseira. «Se erra por milissegundos isso pode ser problemático», revela Erica Simon, investigadora em psicofisiologia respiratória no Centro Nacional de Perturbação de Stress Pós-Traumático americano. «Podem ocorrer erros devido a coisas como movimento», aponta.

O WellBe apenas funciona quando o utilizador está sentado, de forma a aumentar a precisão. Esse aspeto é, em si mesmo, uma desvantagem, já que para alguém que caminha ou anda de bicicleta, a parte mais stressante do seu dia poderá ser o momento de circulação na estrada. Contudo, os mais pequenos movimentos, podem prejudicar a recolha de dados. «O movimento não é apenas alguém a caminhar», refere Erica Simon. «O movimento significa que eu movi o meu pulso porque estou a escrever, ou tomei um gole do meu café, ou estou a falar ao telemóvel, os próprios gestos. Qualquer uma dessas coisas pode reduzir completamente a precisão», explica.

Simultaneamente, um algoritmo que funciona para uma pessoa, pode não funcionar para outra, acrescenta Simon. E mesmo que o dispositivo possa monitorizar com precisão a variabilidade da frequência cardíaca, isso não significa que consiga automaticamente definir como nos sentimos – alguém que esteja entusiasmado ou feliz, por exemplo, poderá ter padrões similares a alguém que esteja sob stress. «É realmente difícil usar a variabilidade da frequência cardíaca como uma medida de stress, porque não consegue separar as diferentes emoções», indica a investigadora. Em acréscimo, os indivíduos não estão tipicamente em stress ou relaxados – em vez disso, os organismos estão habitualmente num estado complexo de ambos simultaneamente, tornando o stress ainda mais difícil de medir.

Outras start-up de wearables procuram medir o stress de forma diferente, como a Spire, um dispositivo que monitoriza os padrões respiratórios em vez da frequência cardíaca, ou a Neumitra, que afere as propriedades elétricas da pele como um sinal de saúde mental. Estes métodos estão, também, sujeitos a erros. Por exemplo, a temperatura e a humidade dos espaços e a medicação tomada podem adulterar os resultados da Neumitra. Apesar da WellBe estar a planear a realização de um estudo independente, não é ainda claro que o seu algoritmo seja capaz de responder aos desafios do dispositivo. Além do mais, apenas recolhe informação durante três minutos por hora, por isso não é claro como poderá identificar os propulsores de stress de cada um.

É possível que o aplicativo funcionasse melhor caso pedisse aos utilizadores que avaliassem o seu nível de stress – e depois oferecesse as mesmas técnicas de relaxamento. No entanto, as restantes funcionalidades do aplicativo parecem ser úteis: a empresa disponibiliza uma biblioteca de 1.000 técnicas diferentes de meditação e outros métodos de relaxamento e o aplicativo procura determinar qual resulta melhor para o utilizador. «A nossa paixão é levá-lo a mais e mais pessoas», afirma Libshtein. «Especialmente pessoas que nunca meditam, que nunca tomaram tempo para reduzir o seu stress e ajudá-las a iniciar este tipo de prática. O que lhes estamos a dizer é que as podemos ajudar a escolher o método certo para elas. Não é uma mantra ou apenas sentar e tentar não pensar. Existem formas simples de reduzir o stress». O verdadeiro ensinamento resultante desta experiência é que não existe apenas um método mágico de medição do stress, ainda que se possa aumentar essa possibilidade com um maior fluxo de informação. No entanto, para alguns indivíduos, isso poderá não ser desejável. O stress é, frequentemente, um efeito secundário do trabalho a ser realizado.