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Web Summit centra-se na ecologia e responsabilidade

Em versão digital, a Web Summit abordou os grandes desafios de 2020 e apontou os caminhos do que poderá ser o pós-Covid. Redução das emissões de carbono, justiça climática, novas formas de trabalho, transformação dos negócios, cidades voltadas para o cidadão e o futuro do capitalismo foram alguns dos temas debatidos.

[©Web Summit]

Concentrada em três dias e num formato virtual, a Web Summit contou com 104.328 participantes de mais de 168 países que, além da habitual programação, puderam ainda estabelecer contactos em “salas” criadas para o efeito e até envolver-se em sessões individuais espontâneas.

Em termos de conteúdos, as sessões foram vocacionadas sobretudo para as soluções, casos de sucesso e estratégias para enfrentar o momento atual e projetar um futuro pós-Covid, revela o gabinete de tendências WGSN.

Reduzir as emissões de carbono

Os compromissos para atingir emissões zero de carbono mais do que duplicaram durante a pandemia, com as empresas a tomarem novas medidas. Algumas estabeleceram metas ambiciosas, mais do que as estabelecidas com o Acordo de Paris. A diretora mundial de sustentabilidade da Amazon Kara Hurst partilhou na Web Summit o compromisso da gigante de comércio eletrónico de atingir emissões zero em 2040 (10 anos antes do Acordo de Paris), depois de ter percebido que teria de se mover mais rapidamente.

Kara Hurst [©Amazon]
Como resultado, cofundou a The Climate Pledge para definir as suas iniciativas climáticas e encorajar outros a associarem-se aos seus esforços. «Ao juntarem-se, as empresas podem dar diversos sinais fortes de que tecnologias, produtos e serviços descarbonizados são todos necessários na luta contra as mudanças climáticas», afirmou Kara Hurst, que anunciou ainda que a Cabify, a Jet Blue e a Uber aderiram à iniciativa, da qual fazem parte também a Best Buy, a Verizon e a Siemens.

A união destas empresas está ainda a gerar oportunidades de parcerias. A diretora mundial de sustentabilidade da Amazon citou o exemplo da ligação com uma das signatárias da The Climate Pledge, a Mercedes-Benz, a quem a Amazon encomendou 1.800 veículos elétricos para fazer entregas e reduzir a sua pegada.

Ryan Gellert [©Patagonia]
Além disso, a Amazon criou um fundo relacionado com este acordo, no qual colocou dois mil milhões de dólares (cerca de 1,65 mil milhões de euros), para ajudar a empresa a investir em tecnologias de descarbonização inovadoras e em desenvolvimento que possam ser integradas na sua atividade.

Justiça climática

Uma nova arena de justiça climática está a ganhar cada vez mais atenção, alimentada este ano pela importância do movimento Black Lives Matter. O CEO da Patagonia, Ryan Gellert, abordou o sentido de responsabilidade que as empresas têm de ter além da mitigação das emissões de carbono. Gellert acredita que o nosso atual sistema económico extrativo é uma questão fundamental, não só em termos de crise ecológica mas também em relação às desigualdades sociais e raciais e está empenhado em focar-se nas comunidades mais impactadas pela crise climática, expandindo os seus esforços ativistas. «Temos sido parte de um sistema demasiado focado na conservação e não nas comunidades na linha da frente», afirmou o CEO da Patagonia, que admite que a sua empresa não tem muito conhecimento ou contribuição nesta área. A marca está agora na primeira fase de aprender e ouvir, reconhecendo que é uma viagem.

Raj Aggarwal [©Provoc]
Raj Aggarwal, presidente da Provoc, abordou a importância de ancorar a ação climática na justiça climática. A agência ajuda empresas a agir em relação à justiça ambiental e criou o Climate Justice Playbook para partilhar o seu conhecimento. O livro completo será publicado em janeiro de 2021 e conta com contributos de marcas como a Patagonia, Danone e Seventh Generation sobre como a sua jornada coletiva pode «equipar os líderes empresariais com a informação e ferramentas que precisam para abordar o trabalho na área do clima com equidade e justiça como elementos fundamentais».

Trabalho dessincronizado

A pandemia mudou a forma tradicional de atividade das empresas, com vários oradores da Web Summit a falarem sobre uma nova forma de comunicar, aprender e trabalhar.

Cal Henderson [©Slack]
Segundo Cal Henderson, cofundador da Slack, «vai haver uma mudança no trabalho dessincronizado que vai sobreviver depois desta pandemia». Este novo futuro, que inclui diferentes tipos de trabalho que podem ser feitos a solo e ao próprio ritmo da pessoa, vai exigir uma restruturação dos KPIs da empresa assim como uma mudança de mentalidade para permitir maior flexibilidade.

Em ambientes de trabalho dessincronizados, há duas considerações importantes para as quais as marcas têm de estar conscientes. Por um lado, os negócios têm de assegurar que estão focados em resultados em vez do tempo gasto nas tarefas. De acordo com Henderson, «já não podemos julgar a eficiência com base no tempo em que a pessoa está sentada à secretária».

Danielle DeRuiter-Williams [©The Justice Collective]
Por outro lado, o excesso de comunicação é um grande problema quando se trabalha online e dessincronizado, considera o cofundador da Slack. Num dia de trabalho cheio de emails e notificações, é importante assegurar que as mensagens que realmente interessam são enfatizadas para manter a clareza e evitar mal-entendidos.

Diversificar os fornecedores

Investir na diversidade enquanto empresa começa com uma transformação interna. A consultora de impacto social The Justice Collective apoia marcas neste processo de transformação através da sua diversidade centrada em igualdade racial e estratégia de inclusão.

A cofundadora e diretora de crescimento e expansão, Danielle DeRuiter-Williams partilhou na Web Summit como a maior influência que as empresas têm é onde gastam o seu próprio dinheiro. DeRuiter-Williams acredita que essa é uma oportunidade para «mudarem e redirecionarem investimento substancial para grupos que defendem a diversidade e a inclusão» e que embora a mudança imediata não vá acontecer do dia para a noite, esta jornada pode levar a uma mudança significativa e sustentável.

Zander Lurie [©SurveyMonkey]
Em setembro deste ano, a The Justice Collective fez uma parceria com a SurveyMonkey para rastrear a representação de mulheres, pessoas de cor e indivíduos LGBTQ+ na administração, equipa de liderança e base de funcionários de um fornecedor. A iniciativa foi adotada por empresas como a 23andMe, Box, Headspace e Zoom e cria mais transparência sobre onde as empresas estão a investir dinheiro.

Segundo Zander Lurie, CEO da SurveyMonkey, as marcas têm o luxo de escolher os seus próprios fornecedores, por isso é imperativo que coloquem «capital em fornecedores que partilham os seus valores». As empresas devem proactivamente perguntar aos seus fornecedores o que estão a fazer para tornar o seu negócio mais diverso e igualitário antes de assinarem contratos de negócio.

Cidades a pensar nos cidadãos

A pandemia de Covid-19, juntamente com as tecnologias emergentes, está a forçar a adaptação das cidades. O aumento das críticas negativas às tecnologias de vigilância e partilha de informação em Londres, por exemplo, levou o presidente da câmara da cidade, Sadiq Khan, a criar o Emerging Tech Charter para assegurar que os cidadãos têm voz no desenvolvimento de critérios para o lançamento de inovações na cidade.

Sadiq Khan [©London.Gov.UK]
«No que diz respeito a tecnologia extraordinária, algumas tecnologias disruptivas, o que queremos fazer é ter a certeza que, na ausência de regulamentação nacional, temos as regras do jogo claras», explicou Khan. Durante a pandemia, quando os londrinos se mostraram preocupados com os dados que estavam a ser recolhidos com a app de rastreamento de Covid, o governo reuniu o input dos cidadãos antes de concordar com a necessidade de não haver nenhuma propriedade central sobre esses dados.

Fernando Medina [©Twitter Fernando Medina]
Em Lisboa, foram implementadas medidas ágeis para apoiar os cidadãos e responder à questão do acesso à habitação. Segundo o presidente da Câmara Fernando Medina, no início da crise havia 25 mil apartamentos vazios (8% de todas as casas em Lisboa) no sistema Airbnb. A cidade lançou um programa para subarrendar as propriedades a jovens e indivíduos da classe média por um preço mais baixo. «Pela primeira vez em muitos anos, tivemos milhares de casas que estavam disponíveis, completamente operacionais, que estavam atualizadas e mobiladas», afirmou. O programa começou com 300 apartamentos e continuou a expandir-se para responder às necessidades dos cidadãos locais.

Questionar o capitalismo

Embora o capitalismo seja creditado como a fonte do crescimento económico e da prosperidade, é também acusado de aumentar as desigualdades sociais. De acordo com Quinn Slobodian, professor na Wellesley College, os sistemas económicos de mercado livre estão sob ameaça porque cada vez mais pessoas estão a desafiar o status quo, favorecendo uma abordagem sistémica aos problemas atuais. A crise climática, por exemplo, está, de muitas formas, ligada a um comportamento capitalista desregulado, onde os sistemas ecológicos aparecem cada vez mais além do nosso controlo.

Quinn Slobodian [©Quinn Slobodian]
Em segundo lugar, o crescente poder da China amplificou a sua influência internacional e geopolítica muito além das suas fronteiras físicas e ideológicas. Como consequência, o capitalismo como o conhecemos entre 1945 e os anos 2000 terá de ser reorientado para os decisores em Pequim, uma tendência de longo prazo que se irá desenrolar na próxima década. À medida que os EUA e a UE começam a aceitar a sua dependência da China, estas áreas historicamente poderosas terão de acomodar uma perda de soberania em relação à tomada de decisões inerentes aos seus próprios sistemas sociopolíticos.

Segundo Slobodian, mais interessante será como o descontentamento em relação ao capitalismo vai ser canalizado. Quando as pessoas perdem confiança na fiabilidade de um sistema para lhes dar oportunidades adequadas, protestam, revoltam-se e procuram formas de expressar as suas preocupações. No entanto, a direção deste descontentamento tem sido canalizada para partidos de direita, convencendo os cidadãos que este é um ponto de tensão política quando, na verdade, o descontentamento resulta do sistema económico implementado.

Triller depois do TikTok

A plataforma de vídeos curtos Triller, que alguns consideram concorrente do TikTok, está a captar a atenção da Geração Z e das marcas.

Bobby Sarnevesht [©Twitter Bobby Sarnevesht]
O presidente-executivo e proprietário da Triller, Bobby Sarnevesht, disse na Web Summit que com 231 milhões de downloads até à data e cerca de 65 milhões de utilizadores ativos por mês, a app orgulha-se de ser uma experiência mais centrada na música, com mais de 80 milhões de músicas disponíveis. Segundo Sarnevesht, «quando [os utilizadores] interagem com música [têm] 100 vezes mais probabilidade de a partilhar». A plataforma tem ferramentas de produção que permitem aos utilizadores fazer facilmente a edição, com a tecnologia fornecida pela MashTraxx.

As marcas começaram a aderir à Triller para responder a uma audiência crescente, com Sarnevesht a citar uma campanha recente da Pepsi batizada Unmute Your Voice. A iniciativa foi lançada como um concerto na app com artistas como Demi Lovato e Chance the Rapper e encorajava os jovens a votar. «Conseguimos converter muita gente a registar-se para votar e também explicar a democracia às pessoas», garantiu o presidente-executivo e proprietário da Triller.