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Web Summit em seis pontos

Entre as dezenas de intervenções que ocuparam os palcos da mais recente edição da Web Summit, seis temas pareceram dominar a visão de especialistas em tecnologia, empresários e políticos, incluindo as desigualdades provocadas pela evolução digital, o 5G e as questões da segurança e privacidade.

Fernando Medina, Pedro Siza Vieira e Paddy Cosgrave

Os quatro dias da Web Summit, que decorreu de 4 a 7 de novembro, atraíram mais de 70 mil pessoas a Lisboa, para discutirem a situação atual do universo tecnológico. Com novas narrativas a emergirem, os oradores sublinharam a importância de criar um mundo mais justo, com um incentivo à ação para governos e empresas assegurarem que a concentração de riqueza e as oportunidades estão disponíveis para todos.

Preocupações com as desigualdades, confiança e privacidade foram discutidas de forma alargada, evidenciando a natureza interligada de cada um destes temas. O mote de Silicon Valley “move-te rápido e parte coisas” criou uma série de efeitos perigosos, incluindo manipulação de dados, monopolização e uma inclusão económica desigual. Os avanços na tecnologia 5G e a computação quântica estão a democratizar o acesso para alguns subsectores da sociedade que foram deixados para trás e, com a consciência climática a crescer enquanto movimento mundial, a maior parte do mundo está agora empenhada na descarbonização.

Entre todas estas temáticas, o WGSN selecionou alguns dos temas mais quentes e pertinentes desta quarta Web Summit.

Ninguém fica para trás

As grandes empresas tecnológicas ficaram debaixo de fogo por uma multitude de razões – da privacidade à confiança – mas foi colocado um novo foco nas pessoas e comunidades que estão a ficar para trás com o rápido desenvolvimento da economia digital.

Tony Blair

Tony Blair, ex-Primeiro-Ministro do Reino Unido e presidente-executivo do conselho de administração do Institute for Global Change, está em missão para fazer com que a globalização funcione para toda a sociedade.

«A tecnologia vai mudar o mundo mas temos de pensar em como o mudar de uma maneira justa e nas formas como nos asseguramos que há acesso a este novo mundo para aqueles que, de outra forma, vão ficar para trás, comunidades ou pessoas», afirmou Blair.

O congressista americano Ro Khanna alertou para a concentração de inovação e riqueza que resultou em desigualdades geográficas. «As pessoas em Silicon Valley estão cada vez mais conscientes que muitos foram excluídos nas zonas rurais da América e em comunidades minoritárias», referiu. O desafio, apontou, é assegurar que toda a gente tem acesso às oportunidades económicas criadas pelo mundo da tecnologia.

Brad Smith

De acordo com Brad Smith, presidente da Microsoft, os consumidores em áreas mais rurais – dos Apalaches ao oeste da Irlanda – estão a questionar o seu futuro no mercado de trabalho digital. A empresa está a envolver-se para criar oportunidades de emprego em regiões que foram esquecidas durante a revolução tecnológica. Uma das iniciativas da Microsoft é a Airband, que procura levar Internet de alta velocidade a regiões mal servidas nos EUA. «Estas comunidades não têm acesso a banda larga e não têm acesso a novas capacidades digitais que serão importantes», indicou Smith.

Responder à desigualdade

O aumento das desigualdades mundiais é uma das questões mais prementes do nosso tempo. De acordo com o gabinete de censos dos EUA, a diferença de riqueza entre as famílias mais ricas e as mais pobres é a maior dos últimos 50 anos. Uma série de intervenções foram dedicadas aos pioneiros e empresários que manifestaram de viva voz a vontade de assegurar que os benefícios do capitalismo eram partilhados de forma mais abrangente.

Jürgen Griesbeck, cofundador da associação Common Goal, partilhou a sua visão para mudar a vida dos jovens desfavorecidos em todo o mundo. A plataforma Common Goal pede a futebolistas para doarem 1% do seu salário para a causa, numa tentativa de «criar uma ponte sistémica entre o futebol para o bem e o futebol para o lucro».

Jürgen Griesbeck

Nos últimos dois anos, 130 atletas profissionais juntaram-se ao desafio, com outros intervenientes, como presidentes de clubes, agentes e jornalistas, a começarem a aderir. «Imaginem se entendermos as contribuições como um indicador de sucesso, como uma moeda, e as reconhecermos e recompensarmos enquanto sociedade», sugeriu Griesbeck. O seu objetivo é alargar o movimento além do futebol para desbloquear outras indústrias e atrair 100 milhões de contribuidores até 2030.

Outras iniciativas citadas na Web Summit incluíram a Checkr, uma empresa de confirmação de currículos com inteligência artificial, que aloca 7% dos empregos na empresa a pessoas com registo criminal. O CEO Daniel Yanisse declarou que a verificação da história pessoal nos EUA anteriormente era binária mas que esta tecnologia é capaz de tornar as contratações mais justas, equilibradas e acessíveis a todas as pessoas da sociedade.

Pascal Saint-Amans, diretor do centro de política fiscal da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), acredita que uma forma de resolver as desigualdades é regulamentar a globalização e assegurar que as empresas estão a pagar os impostos corretos. Contudo, Jane McCormick, diretora de impostos na KPMG, considera que essa opção nunca vai resolver as desigualdades e que «o verdadeiro problema são os impostos sobre a riqueza e sobre os rendimentos».

Uma questão de confiança

Katherine Maher, CEO da Wikipedia, acredita que o mundo está a passar por uma crise de confiança. Esse é o principal problema, revelou, uma vez que vê a confiança como uma condição fundamental para operar na sociedade contemporânea.

Katherine Maher

«A confiança é a infraestrutura invisível que permite que o nosso mundo globalizado funcione. Sem confiança, os sistemas assumidos como garantidos simplesmente deixariam de funcionar. Parece que estamos numa crise de confiança sem precedentes desde que há memória. Dos governos à imprensa, da medicina à ciência, pessoas em todo o mundo estão a voltar as costas às fontes tradicionais de autoridade», sublinhou.

Para Maher, isto tem enormes implicações na nossa capacidade de mobilização e cooperação para responder aos desafios e criar mudanças sistémicas. «Em vez de nos juntarmos, estamos a definir-nos pelas nossas diferenças, as nossas ligações aos outros estão a quebrar-se. E com os níveis de confiança a cair, encontramo-nos cada vez mais isolados e tremendamente divididos», apontou.

Richard Edelman, CEO da Edelman, acredita que a questão da confiança emergiu tanto por causa da falta de factos fiáveis como por uma diminuição nas oportunidades de emprego. O relatório anual Trust Barometer, feito pela sua empresa, concluiu que quatro em cada cinco pessoas acredita que o seu rendimento vai ser mais baixo daqui a 10 anos. «Se não tivermos os negócios a avançarem suficientemente rápido, vamos ter mais comportamentos distópicos», declarou, assinalando, nomeadamente, o aumento do populismo, do nacionalismo e do sectarismo.

Proteger a privacidade

Edward Snowden abriu a Web Summit 2019 com um alerta forte sobre a privacidade dos dados.

Edward Snowden

O ex-analista da NSA, a agência de segurança nacional dos EUA, atualmente em exílio na Rússia, afirmou, através de videoconferência, que a encriptação é uma das melhores defesas existentes da democracia e da liberdade.

Jay Sullivan, diretor de produto no Facebook, reconheceu que o mundo evoluiu e que as pessoas querem agora mais privacidade nas suas conversas mais íntimas. O Facebook Messenger está ainda longe de ser uma plataforma completamente encriptada, confirmou Sullivan, mas a sua ferramenta Secret Conversations está a permitir à rede social fazer experiências com essa funcionalidade, incluindo possivelmente fechar o acesso às autoridades. «Não se pode dar acesso aos bons sem dar acesso aos maus», justificou o diretor de produto do Facebook.

Brittany Kaiser

Brittany Kaiser, ex-diretora de desenvolvimento de negócio da Cambridge Analytica, acredita que a melhor forma de proteger a privacidade dos dados é melhorar a literacia digital, mas que isso pode ser já demasiado tarde. «Lamento dizer isto, mas se tinham um perfil de Facebook antes de abril de 2015, não podem ter de volta a vossa privacidade, esses dados já foram comprados e vendidos e trocados em todo o mundo e não há forma de sair dos milhões de bases de dados em que provavelmente estão», explicou.

Ligar o mundo

O 5G, a mais recente rota para a autoestrada da informação, emergiu como uma inovação essencial. À medida que a rede se expande, estão a ser desenvolvidas novas tecnologias e aplicações. Atualmente, 40 operadoras em 20 países estão já a usar as redes 5G comercialmente e outras 40 deverão ser lançadas até ao final de 2019.

Guo Ping

O presidente do conselho de administração da Huawei, Guo Ping, afirmou que a tecnologia chinesa estará na vanguarda do 5G, que considera ser «uma ferramenta essencial para o desenvolvimento profundo». A empresa tem estado ativa a desenvolver novas aplicações, como o novo sistema inteligente de viagens no aeroporto de Daxing, em Pequim. O sistema, que usa tecnologia de reconhecimento facial, permite aos passageiros o check-in imediato, autorização de segurança e embarque sem ter de mostrar qualquer documento. Ping também apresentou um novo programa de incentivos para novos desenvolvimentos para maximizar o potencial do 5G. A bolsa de mil milhões de dólares (cerca de 910 milhões de euros) irá apoiar e criar um ecossistema móvel mais inteligente e mais inovador.

A OneWeb, uma rede de telecomunicações móveis “sediada no espaço”, está a permitir conectividade 5G de alta velocidade em áreas rurais em todo o mundo. Atualmente a construir uma constelação de 650 satélites, o objetivo da OneWeb é fornecer serviços de internet de banda larga a pessoas em qualquer lugar a partir de 2021. «É para toda a gente, em qualquer lado», referiu o CEO Adrián Steckel.

Adrián Steckel

A empresa quer ligar 3,8 mil milhões de pessoas que não conectadas a internet de banda larga. «O problema que estamos a ajudar a resolver é de ligar as pessoas em qualquer sítio, independentemente onde está no planeta: no deserto, no topo de uma montanha ou no meio do oceano», acrescentou.

Fazer negócio no espaço

A privatização da indústria espacial está a criar um novo mundo de oportunidades. Takeshi Hakamada, fundador da ispace, uma empresa japonesa de exploração lunar, angariou 94,5 milhões de dólares em investimentos para as suas próximas missões e apresentou oportunidades para as empresas não ligadas ao espaço entrarem no mercado. Hakamada está atualmente a trabalhar com a Suzuki para usar o seu sistema de absorção de choques, assim como com a companhia aérea Japan Airlines e a gigante dos relógios Citizen.

ispace

De acordo com Chantelle Baier, fundadora da 4Space, recentemente Jeff Bezos, fundador e presidente da Amazon, esteve numa conferência dela e afirmou que pode ir à lua mas que precisa de outras empresas para começar a desenvolver os produtos. Baier acredita que isso vai criar novas economias para o turismo espacial e apelou às marcas para que comecem a fazer já as suas experiências. Alan Boehme, diretor de tecnologia da P&G, revelou que a empresa já desenvolveu produtos como dentífrico e creme de barbear para as viagens ao espaço e que continua a investir em investigação e desenvolvimento para viagens espaciais.

Um lado menos positivo do crescente interesse na comercialização no espaço é a questão dos detritos. Pedro Martinez, da Secure World Foundation, afirmou que «agora temos de pensar no espaço sideral como um espaço natural limitado», sublinhando que há 8.000 toneladas de lixo a orbitar a Terra. Devido à falta de legislação no espaço, tanto os governos como as empresas privadas não supervisionam nem descartam de forma responsável os satélites, criando o potencial para colisões desastrosas.

Até recentemente, não havia motivos comerciais para remover os detritos de órbita. Nobu Okada, CEO da Astroscale, acredita que a sustentabilidade orbital é um mercado de futuro e lançou a sua empresa há sete anos para começar a construir a tecnologia para isso. Okada está convencido que «nos próximos sete anos, a remoção de detritos no espaço será apenas trabalho rotineiro», com as empresas «a varrerem silenciosamente o espaço».

Astroscale