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WeSenss a caminho dos EUA

Com financiamento da Universidade Carnegie Mellon, o projeto do Inesc-Tec está a tornar-se independente e deverá dar origem a uma spin-off no próximo ano.

João Paulo Cunha

O WeSenss surge no seguimento de outros projetos de investigação na área de sensorização do Inesc-Tec, como o Vital Jacket, e tem como objetivo criar uma plataforma que permita a monitorização de sinais vitais para quantificar a exposição dos bombeiros a diferentes condições de trabalho e determinar o seu nível de stress e de fadiga.

João Paulo Cunha, professor do Inesc-Tec, afirmou na apresentação do projeto que os dados recolhidos nos EUA mostram que «a maior parte das mortes em trabalho dos bombeiros devem-se a stress. Tentámos encontrar uma solução para monitorização em tempo real e contributo para a gestão do bem-estar da equipa, com identificação de indivíduos com stress».

Como explicou ao Jornal Têxtil, o sensor consiste «num patch parecido com o que já há noutros, portanto, é uma parte que tem cola e tem os elétrodos. É só colado. Depois usámos uma membrana por cima por uma questão de mantê-lo mais próximo – os bombeiros fazem exercício e em alguns casos, por causa do suor, podia descolar».

Inicialmente, os sensores estavam embebidos no vestuário, mas o ciclo de lavagem tornou essa opção menos viável. «Achámos que o têxtil complicava a maior parte dos nossos study cases e, por isso, investimos no snap-to-skin e já estamos a trabalhar em under-skin», revelou.

Inovação na proteção

O projeto permitiu o desenvolvimento de dois dispositivos: um para recolher sinais vitais, com eletrocardiograma (ECG), temperatura corporal e padrão do ciclo vigília-sono, e o outro para recolher variáveis do ambiente, nomeadamente a temperatura, humidade, pressão atmosférica, luminosidade, altitude relativa, monóxido de carbono, dióxido de nitrogénio e concentração de partículas atmosféricas.

Segundo os investigadores, a solução WeSenss tem algumas vantagens face ao que existe atualmente, nomeadamente o facto de permitir a troca de informação automática, a eficiência em ambientes difíceis, a monitorização em tempo real dos sinais vitais de cada indivíduo, a monitorização em tempo real da exposição individual ao ambiente e a geolocalização em tempo real de cada um. Contudo, sublinhou João Paulo Cunha, «estamos a usar uma abordagem típica de ambulatório no ECG. Não estamos a responder a problemas médicos, não é um dispositivo médico».

A solução foi testada com mais de 700 horas de recolha e análise de dados, incluindo junto da corporação de bombeiros de Albergaria-a-Velha. «O acesso a dados em tempo real de cada bombeiro permite-nos ajudá-los a evitar que entrem em stress, quer seja térmico ou induzido pela fadiga. É, sem dúvida, uma mais-valia em termos de segurança dos bombeiros», reconheceu o comandante da corporação, José Valente Ferreira, citado por João Paulo Cunha.

Da universidade para o mercado

O projeto deverá agora sair do âmbito puramente académico e avançar para o mercado. «Como qualquer instituição como o Inesc-Tec, que produz conhecimento e integra conhecimento das universidades a que está associado, a nossa missão, a certa altura, quando achamos que as coisas estão a ficar maduras, é pensar qual é o business case que a patente Y, X, Z pode ter. E foi isso que fizemos no último ano. Estivemos nos EUA com esse processo, envolvi algumas pessoas que fizeram o processo de very early partnership na Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, e na Califórnia, em Mountain View, mesmo juntinho à Google, portanto é um bom sítio para arranjar investimento. Achamos que as coisas estão agora maduras para tentar uma spin-off», explicou, ao Jornal Têxtil, João Paulo Cunha, que não põe de lado, contudo, um modelo de negócio que inclua parceiros europeus. «O mercado que estudámos foi o mercado americano, até pela parceria que temos com a Universidade de Carnegie Mellon e porque, na verdade, era o mercado mais interessante. É claramente esse o estudo que temos. Obviamente que se tivermos financiamento europeu, trabalharemos com o mercado europeu, até se calhar como um passo para lá chegar», admitiu.

Além dos bombeiros, a spin-off deverá ainda direcionar-se para a área da saúde ocupacional e da segurança em geral.