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Xinjiang trama marcas na China

A tomada de posição em defesa dos direitos humanos na China, após denúncias de alegado trabalho forçado no cultivo de algodão em Xinjiang, por parte de várias marcas ocidentais está a levar a reações negativas dos consumidores chineses. H&M, Nike e Burberry são alguns dos nomes já boicotados no mercado.

[©Human Rights Watch]

No início da semana passada, os utilizadores das redes sociais direcionaram o seu descontentamento para a H&M por causa de uma declaração da retalhista sueca, publicada já em setembro do ano passado, em que dizia que não iria aprovisionar algodão de Xinjiang e estaria a terminar a sua relação com uma produtora chinesa de fio sediada na região por causa das acusações de trabalho forçado que envolveria minorias étnicas.

Uma publicação da Liga da Juventude Comunista da China na Weibo, a versão chinesa do Twitter, onde se lia «a espalhar rumores para boicotar o algodão de Xinjiang enquanto tentam fazer dinheiro na China? Queriam!», recebeu centenas de milhares de “gosto” e foi reencaminhada quase 30 mil vezes.

A loja oficial da H&M na plataforma de comércio eletrónico Tmall, pertencente ao gruo Alibaba, deixou de estar acessível e o jornal local People’s Daily revela que as pesquisas por produtos da H&M nas plataformas JD.com, Taobao e Pinduoduo já não produzem qualquer resultado.

Mais de 40 celebridades também terão comunicado o cancelamento dos seus contratos com marcas que anteriormente efetuaram declarações sobre trabalho forçado em Xinjiang, incluindo a Adidas, Nike, Uniqlo, Converse, CK, Puma, New Balance, Tommy Hilfiger, Lacoste e Burberry.

A Burberry terá sido, de resto, a primeira marca de luxo a sentir este boicote, tendo perdido a embaixadora da marca na China, Zhou Dongyu, que terminou o seu contrato com a marca por a Burberry não ter «clara e publicamente tomado uma posição no algodão de Xinjiang», refere a Reuters, citando um comunicado da agência da atriz. Também a empresa de jogos chinesa Tencent pôs fim à parceria com a Burberry para criar skins, ou coordenados de moda digitais, para o seu conhecido jogo Honor of Kings.

A Burberry – que em novembro declarou aos legisladores britânicos que não tem qualquer operação nem trabalha com fornecedores sediados em Xinjiang, mas que não aceita qualquer forma de escravatura moderna – faz parte da Better Cotton Initiative (BCI), uma associação que promove a produção sustentável de algodão, que em outubro anunciou ter suspendido a sua aprovação para algodão aprovisionado em Xinjiang por preocupações relacionados com a violação de direitos humanos.

Respeito pelo mercado chinês

Notícias nos meios de comunicação social mostram ainda que marcas como a Fila China e a Anta encontram-se em processo de abandonar a BCI e estão a juntar-se a empresas como a Meters Bonwe e a Semir, que anunciaram na Weibo que apoiam o algodão produzido na China, incluindo em Xinjiang.

Xinjiang é a maior área de produção de algodão na China, representando mais de 80% da produção local. Contudo, essa produção tem estado a ser ligada ao trabalho forçado da minoria Uigur em campos de reeducação. De acordo com um estudo citado pelo Sourcing Journal, mais de meio milhão de trabalhadores de minorias estão a ser obrigados a apanhar algodão à mão através de um programa, apoiado pelo governo chinês, de transferência de mão de obra e “alívio da pobreza”.

Zhou Dongyu [©Burberry]
A Associação de Algodão da China afirma que se opõe a qualquer restrição na cadeia de aprovisionamento de têxteis e vestuário de Xinjiang e produtos relacionados em países ocidentais, a começar pelos EUA, e «apela urgentemente a que parem com as suas práticas erradas». Em comunicado, a associação pede «às marcas internacionais de têxteis e vestuário para terem em conta os interesses comuns da indústria, respeitarem o mercado chinês, respeitarem os consumidores chineses e manterem a cautela e contenção em resposta a acusações não-provocadas sobre Xinjiang. A abertura e desenvolvimento da indústria de têxteis de algodão da China não vai acabar por causa da supressão de forças anti-China e anti-Xinjiang».

A Associação de Algodão da China adverte que «a supressão crua dos governos ocidentais não só irá prejudicar diretamente os grupos mais vulneráveis na cadeia industrial de milhões de agricultores de algodão e trabalhadores têxteis em Xinjiang, como também vai afetar seriamente os interesses de importadores, distribuidores, retalhistas e consumidores de têxteis e vestuário em vários países. Vai, em último caso, lesar o desenvolvimento estável e próspero da cadeia de aprovisionamento e da cadeia industrial de têxteis e vestuário do mundo».

As críticas surgem depois das recentes sanções por parte da União Europeia, do Reino Unido, do Canadá e dos EUA aos oficiais chineses envolvidos no internamento em massa de muçulmanos Uigures em Xinjiang, que foram aplaudidas por associações de têxteis, vestuário e calçado.

Luta de titãs

A China é um mercado importante para muitas marcas, nomeadamente H&M e Nike. De acordo com Di Fan, professor assistente de marketing e retalho de moda na Universidade Politécnica de Hong Kong, a Grande China é o quarto maior mercado da H&M, tendo sido responsável por 1,1 mil milhões de dólares (cerca de 933 milhões de euros) em vendas em 2020, enquanto para a Nike esta região é a mais rentável e em mais rápido crescimento, mesmo durante a pandemia.

Perder os canais online será um grande golpe para ambas as marcas, aponta Di Fan ao Sourcing Journal, porque «a pandemia fez com que os consumidores preferissem as compras online». Além disso, empresas e figuras públicas chinesas podem ficar «relutantes em estabelecer parcerias com empresas que não são bem-vindas pelo governo chinês», sublinhou.

H&M [©CNN]
Peter Irwin, um responsável sénior do Uyghur Human Rights Project, um grupo de pressão em Washington, considera que esta questão é uma «tática de medo» imposta pelo regime do Partido Comunista para manter as empresas estrangeiras em linha com os seus objetivos.

Para este responsável, uma das soluções será as marcas juntarem forças e repudiarem a utilização de trabalho forçado de uma forma «mais concreta», sugere. «Ao fazer isso, evitam ataques diretos porque o governo chinês não está em posição de ir contra toda a indústria de moda», explica Irwin. «Que não haja dúvidas, a China precisa absolutamente destas empresas para impulsionar a sua indústria de algodão e têxtil», assegura.