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ERT abre horizontes com a Fibrenamics

A união entre a empresa especialista em laminação e a plataforma de investigação de fibras da Universidade do Minho tem quase uma década e continua a dar frutos. O mais recente desenvolvimento conjunto chama-se GradiERT e resultou em soluções para os sectores automóvel, defesa e arquitetura.

Fernando Merino e Raul Fangueiro

O projeto foi apresentado no passado dia 5 de dezembro num Open Day da ERT e consiste no desenvolvimento de compósitos com gradientes de propriedades para estes três sectores, fabricados a partir de resíduos industriais de EVA (etileno-vinil-acetato), provenientes de desperdícios gerados na produção de calçado. «O que estamos a fazer é a utilização do resíduo na componente estrutural, por exemplo, dos apoios de braço dos automóveis. Permite substituir o plástico de um componente que revestimos com espumas, tecidos e pele, mas que não é produzido por nós. Aqui estamos a mostrar que, com este tipo de tecnologia, poderemos vir a entrar nessa área e a substituir o plástico por este compósito», explicou, ao Portugal Têxtil, Fernando Merino, diretor de inovação e marketing da ERT.

Open Day

O projeto, revelou João Bessa, coordenador do projeto GradiERT na Fibrenamics, apoiou-se em três tendências – sustentabilidade, reciclagem e redução de peso – utilizando materiais gradientes, isto é, «materiais que se caracterizam pela variação das suas propriedades ao longo da sua dimensão, obtendo-se propriedades únicas e diferentes de qualquer material individual». Além dos resíduos de EVA, o GradiERT incorpora fibras naturais e, para a produção, foi utilizada a tecnologia de moldação por compressão a quente, após diversos testes de comportamento. Além do apoio de braço, foram ainda criados modelos demonstradores de um módulo de revestimento, que pode ser utilizado na arquitetura, e um padding para a área da defesa, que «pode ser usado em capacete e joelheiras e absorver o impacto», indicou João Bessa.

João Bessa

O desenvolvimento deste produto demorou dois anos mas, assume Fernando Merino, o grande desafio é chegar aos clientes com estas inovações. «Agora, pela frente, temos um caminho mais longo do que propriamente dois anos», afirmou.

Inovar com parcerias

A inovação permeou a empresa, que começou por criar um grupo de inovação, numa abordagem top-down, que «foi o grande impulsionador» do ADN inovador de que a ERT se orgulha hoje. «Agora alastrou a outras áreas. Atualmente temos um esquema de funcionamento mais matricial, isto é, apoiamo-nos muito na investigação que é feita pelos centros de investigação, universidades ou centros tecnológicos. Eles fazem todo este trabalho de pesquisa, de investigação mais fundamental, mais científica, e depois quando é preciso transferir para áreas de engenharia, temos que envolver as pessoas de engenharia. A injeção de inovação que foi dada acabou por ter impacto, venceu barreiras, tornou a empresa muito conhecida e apetecível para trabalhar em inovação», assegurou o diretor de inovação e marketing.

Com a Universidade do Minho, incluindo a plataforma Fibrenamics, a ligação tem quase uma década. «Ao longo desse tempo temos tido diversos projetos interessantes em vários domínios. E tem sido uma colaboração bastante profícua, porque normalmente os projetos que temos levado a cabo resultam sempre em soluções interessantes para o mercado», reconheceu Raul Fangueiro, coordenador da Fibrenamics.

No caso do GradiERT, «este projeto liga performance com sustentabilidade, que são dois pilares interessantes na questão da inovação. Acho que faz já a transição do modelo baseado em inovação para um modelo baseado em sustentabilidade, que é aquilo que vem a seguir», admitiu.

GradiERT

No total, a Fibrenamics tem já uma rede de cerca de 350 parceiros de vários sectores industriais e contabiliza cerca de 60 projetos «que deram origem a produtos inovadores em várias empresas», 45 dos quais reconhecidos por patente, apontou Raul Fangueiro.

Uma dessas patentes é da ERT e diz respeito a uma estrutura multicamada que integra simultaneamente a capacidade de isolamento térmico e acústico, acabamento e interatividade com o utilizador, através de um sensor piezorresistivo.

Atualmente, a empresa de São João da Madeira, que nos últimos seis anos desenvolveu projetos com um financiamento partilhado com o Compete no valor de 5 milhões de euros, está também envolvida em duas linhas de investigação no projeto mobilizador TexBoost, uma para materiais avançados na área da proteção, onde tem como parceiro a Polisport, e outra no seguimento da reutilização de desperdícios dos processos industriais, com revestimentos obtidos a partir de resíduos de EVA e couro.

Internamente, «uma área que estamos a explorar agora é a fusão da parte mais tecnológica com o desenvolvimento experimental de materiais, quebrando fronteiras. Estamos a fazer coisas com maçã, banana, pelo de javali…», exemplificou Fernando Merino. «Estamos a trabalhar em áreas muito exploratórias, a olhar para a natureza, e a trabalhar na área da sustentabilidade», asseverou. Mas as parcerias continuam a ser fundamentais, mantendo a tónica que já juntou a empresa a clientes como a Faurecia, a Simoldes ou até a outras empresas sediadas na Oliva Creative Factory, onde a ERT tem o seu Creative Innovation Centre e onde decorreu este Open Day. «Queremos manter parcerias com centros de investigação, com universidades, com clusters, com clientes… Parcerias sempre», realçou o diretor de inovação e de marketing.

Raul Fangueiro (Fibrenamics), Fernando Merino (ERT), Jorge Sequeira (Presidente da Câmara de São João da Madeira) e João Bessa (Fibrenamics)